segunda-feira, 7 de novembro de 2011

9da10

A partir de agora, vai tudo para o novo endereço:

DIÁRIO DE UM VERÃO QUE NUNCA ACONTECEU
pt. 2

A sala era indivisível com o minúsculo quintal nos fundos, a porta sempre aberta tomava uma parede inteira, balançando aquelas cortinas cor de água de coco. Um dos meus pés pendia do sofá de madeira, e roçava no tapete de palha, áspero e grosso. Meus olhos fechados refletiam o brilho azul imenso do mar para o interior de minhas próprias pálpebras. O som das ondas era eterno nos meus ouvidos. Não havia nenhuma televisão na sala. Nem revistas. Apenas uma estante estreita com quatro prateleiras que continham exatamente 14 livros mofados em francês, nunca abertos ou folheados. O único paralelo com o presente era um disco da Amy Winehouse que tocava repetidas vezes no rádio em cima da pia do banheiro, distante.
Eu sentei direito, esticando as pernas até a mesinha cheia de manchas de copos, e esperei. Cocei um pulso, para revelar o perfeito contraste da pele sob a pulseira de pano e o resto do meu corpo. Ele chegou e me ofereceu o copo de coca. Seu nariz aparecia debaixo do cabelo denso coberto de pequenas manchas brancas da pele descascada. Dei um gole e um suspiro mental. Fiz um comentário qualquer. Minha voz saiu rouca. Ele desviou os olhos e repousou a cabeça na parede.
Você estava dormindo. As cortinas enroscavam-se.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

DIÁRIO DE UM VERÃO QUE NUNCA ACONTECEU

Nossos ombros queimados soltavam finíssimas camadas de pele, que se perdiam em meio à areia ainda mais fina e onipresente em todas as superfícies expostas e não expostas. Aliás, a areia infinitamente branca era tão fina que parecia penetrar por todos os poros e aos poucos depositar-se na nossa corrente sanguínea. Sandmen. Lábios rachados de tantos sorrisos imersos na água salgada de temperatura idêntica à de nossos corpos eternamente cansados porém felizes. A canção constante e distante rodava incessantemente no fundo de nossas mentes, desprovida de uma melodia mas mesmo assim uma música completa. As noites eram tão longas quanto a estação e tão curtas quanto a nuvem que encobre o sol e revela o silêncio das ondas. Os dias de vários meses se passaram sem acrescentar-nos mais do que meia dúzia de memórias.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

OT

quo
Círculos dançantes de cor já se formavam na tela branca diante dos olhos cansados recém-despertados. Os dedos estavam secos e frios, e sobrevoavam o teclado, por vezes fazendo rápidos mergulhos, mas sem efetivar a captura de nenhuma frase, palavra ou ideia sequer. Procurava avidamente algum sinal de inquietação no ambiente movimentado, mas tudo permanecia austero e ordinário.
O cheiro de decomposição exalado pelos sacos de lixo, que caminhavam atados às mãos nuas de objetos uniformizados, desviou o seu olhar e quebrou sua já escassa concentração. A luz gelada do sol, folha a folha, aos poucos invadia o pequeno jardim. Os sons silvestres e humanos possuíam a mesma natureza, parte de um todo coerente, indivisível e inconsciente.
Desistiu de buscar um desfecho e resolveu analisar as semelhanças dos padrões de voo dos beija-flores e das abelhas.

domingo, 15 de maio de 2011

sexta-feira
Inclinou a cabeça para o lado, jogando todo o cabelo por cima de uma orelha, enquanto olhava para fora da janela da sala de aula. O vento passou com uma onda através do bambuzal iluminado pelo brilho de quatro e vinte. A voz forte do professor era um sussuro distante comparada aos apelos desesperados do sol, do vento e das árvores inacessíveis. Olhou para baixo, para a folha do caderno com apenas um rabisco acidental e para o próprio pé, pendendo por cima do joelho. Tudo parecia cinza e enfumaçado, como se visto através de um vidro sujo. Piscou, levantou os olhos e esquadrinhou a sala. O volume da voz aumentou ligeiramente, mas ainda não conseguia divisar nenhuma palavra.
- Vou parar de usar drogas - foi a sua resolução.
- Tenho que sair dessa aula - foi sua conclusão. Levantou e saiu, cambaleante e esfregando os olhos, e apoiou-se no corrimão da escada em frente à sala, expirando alto. O eterno senso de culpa e responsabilidade a impediu de voltar, pegar suas coisas e ir embora definitivamente.
Esse conflito interno era o costume de todos os dias, sem falta, mas em especial das sextas-feiras.