sábado, 29 de dezembro de 2007

III

Pareceu que todo o salão fez um silêncio admirado quando ele adentrou pela porta de madeira e vidro. O cabelo curto e castanho, puramente castanho, alto, magro mas nem remotamente desajeitado, sua presença se fez notar. Ele estava adoravelmente deslocado naquele ambiente, apesar de estar bem-vestido como todos e melhor que muitos. Seus olhos correram pelas mesas e sofás, procurando encontrar algum rosto conhecido, ou que valesse a pena conhecer. Ele se reteu imperceptívelmente em um par de olhos em especial.

Cíntia percebeu quando ele entrou. O cabelo impecável, expressão indecifrável e educada, terno preto, camisa branca e gravata preta. Just like Constantine, ela pensou. Estava com mania de pensar em outras línguas. Ela sentiu uma excitação tímida quando o viu olhando para a mesa em que estavam ela, Vinícios, Laila e Viviane. A excitação logo foi substituída por um ódio silencioso e autopiedoso quando ela notou os olhos dele se detendo por um milésimo de segundo no cabelo brilhante e sedoso de Laila. A amiga, como sempre, não percebeu, ou fingiu não perceber. Continuou conversando com Vinícius sobre alguma coisa sem importância.
Procurou não transformar seu pequeno drama em coisas físicas como bochechas muito vermelhas ou lágrimas. Tomou um gole da taça de vinho branco e ajeitou as alças do vestido de cetim azul marinho. Não pôde conter um pequeno sorriso de vitória ao ver os olhos de Vinícios em seus peitos, e a cara dele quando desviou os olhos ao perceber que ela viu.

O tal estranho sentou-se em um sofá vazio perto do bar, recostou e olhou em volta como se esperasse por alguém. Nada melhor para atiçar a curiosidade de todos os presentes.
Okay, ele pensou. O que eu vim fazer aqui?

Laila viu quando o cara entrou, viu as caras abestadas das garotas, as de inveja dos garotos e viu também quando ele olhou descaradamente para ela. Resolveu "não perceber", como sempre fazia. Não estava realmente interessada em nenhum envolvimento romântico no momento, pelo menos não aquela noite. Estava feliz por conversar com seus amigos, beber champanhe e rir dos velhos gordos e rosados que enchiam a festa.
Mas o que ele fazia lá, afinal? Laila conhecia a maior parte daquelas pessoas como amigos dos pais de Cíntia e Vivi, então ele devia ser filho de alguém. O que importa, afinal? Que coisa mais The OC.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

II

Os braços nus estavam arrepiados por causa do frio, e seu hálito quente se misturava à fumaça do cigarro que tremia entre seus dedos compridos. Laila estava encostada no muro velho e descascado, com os tijolos à mostra, do lado de fora da festa. Não tinha nenhum problema concreto, mas aquela multidão de gente barulhenta e música eletrônica simplesmente não a agradavam. Era tudo muito igual, muitas menininhas com estilo e rapazinhos tão perfeitamente descuidados e encantadores, parecendo sósias das celebridades da internet. Todos dançavam como se aquilo fosse tudo o que restava fazer - e talvez fosse -, mas ela queria mesmo é sentar na beira do lago e comer churrasquinho ou sorvete com seus amigos.
Seu olhar vagou para a caçamba de lixo destampada e enferrujada do outro lado da rua. Deu um suspiro e desejou não ter perdido o casaco nem a bolsa com o celular. Ela não sabia nenhum número de cor, e não conhecia ninguém na bendita festa. Bom, ela sabia um número, mas não estava disposta a ter que usar essa última alternativa.
Deu mais um trago no cigarro e jogou-o no chão, ao lado das garrafas quebradas e latinhas amassadas de cerveja. Podia voltar lá pra dentro, encontrar alguém que talvez não estivesse muito bêbado ou drogado e perguntar o telefone de algum táxi. Mas, merda, tinha perdido a chave de casa. Como diabos ela ia chegar em casa, tocar a campainha às quatro da manhã, quando tinha dito que foi dormir na casa de Cíntia? Não sabia por que tinha feito isso, já que os pais não se importavam realmente de que ela saísse à noite. Mas a fez evitar perguntas ou um eventual "não".
Ela podia esperar até umas nove horas, que seria aceitável voltar para casa ou ir se refugiar na casa de alguém. Mas ainda faltavam cinco horas e meia para as nove horas, quando seria aceitável entrar na casa de alguém, ou na própria, e ela não queria dormir na rua, não era lá muito... agradável, ou seguro. Podia, então, voltar para dentro da boite e tentar aproveitar, se soltar, encontrar um garoto que tivesse um carro e a chave de casa... É; era isso que ela ia fazer.
Não sem antes dar uma olhada na rua deserta, ela virou e voltou para dentro. Música eletrônica continuava sem descanso, e a festa parecia animada. Não pode ser tão difícil, ela pensou.
Foi até o bar e pediu um copo de vodka. É, só vodka. Recebeu um copo plástico vermelho, de que deu um gole grande assim que segurou. Olhou à sua volta. Um rapaz em especial chamou sua atenção, mas antes que ela pudesse tomar qualquer decisão, ele percebeu seu olhar e traçou uma reta até ela, postando-se na sua frente.
"Oi," ele disse. Bom, simples, objetivo. Mas Laila, infelizmente, não estava disposta a conhecer ninguém aquela noite. Arrastou o sujeito pelo pulso até um canto afastado e ligeiramente mais calmo do ambiente completamente lotado e puxou-o pelo pescoço. Ele pareceu um pouco surpreso, mas não podia reclamar.
Entre beijos esfomeados e suspiros, Laila ofegou ouvido do rapaz: "Você tem carro?"
Eles transaram incansavelmente até as oito da manhã.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

I

Quatro garotas sentadas em uma das mesas do Outback, domingo, umas sete e meia da noite.

– Cara, mais duas semanas e férias! – exclamou Aline, afundando no banco. – Não agüento mais essas provas.
– Por que a gente não dá uma festa? – disse Vivi, a negra alta de cabelo sedoso e vestido vermelho-sangue. – Assim, antes do final do ano?
Cíntia levantou a cabeça, o corpo formigando por antecipação. Festa? Isso é o que elas faziam de melhor. As festas mais lendárias de todas foram dadas por essas quatro meninas em particular, Viviane, Cíntia, Laila e Aline.
– Seu pai deixa a gente usar a casa do Parkway? – perguntou Laila a Aline, segurando a caneca de vidro cheia de coca e gelo.
– Acho que sim – ela respondeu. – Quando? Semana que vem?
– Na outra, fim de semana que vem eu tenho que ir praquele casamento em não-sei-lá onde – disse Cíntia. Não que ela fosse detestar esse casamento, isso significava ver os filhos-gostosos-dos-amigos-dos-pais de terno.
– Vou no banheiro – declarou Vivi, escorregando até a ponta do banco de couro e se levantando. – Vão pedindo a conta.
– Amanhã tem prova de geografia. – disse Aline, com um gemido.
– Foda-se. – Laila estava de como as pessoas ficavam obcecadas com provas, escola, o caralho a quatro. A pior parte do final do ano.
– Mas então, vocês vão lá pra casa sexta? – perguntou Cíntia. – A gente pode estudar. E comer brigadeiro.