Viviane sentou na bancada de mármore bem no meio da cozinha, sacudindo uma caneca de plástico da Minnie cheia de whisky e gelo e vendo Fábio, seu namorado, e Vinícios tentarem encenar do filme a que eles assistiram no dia anterior através de berros bêbados acompanhados de movimentos aleatórios e esparsos, recebidos com assobios e gritos da platéia de machões embriagados. Meninos, ela suspirou, olhando para os lados.
Ela viu dois rapazes entrarem entrarem na cozinha, André, alto e moreno, com a barba por fazer, e Sérgio com o cabelo castanho-claro cacheado caindo em volta dos olhos, acentuando o ar de chapado-sonolento-sensual que ele exibia. Eles eram gatos, e era meio sexy que eles estivessem quase sempre juntos, fazendo orgias selvagens com as duas amigas malucas, Cíntia e Laila.
Falando no diabo, segundos depois Laila entrou se sacudindo toda em um biquini branco e minúsculo, embora estivesse fazendo dez graus lá fora. Mas, eles estavam aqui dentro, e na cozinha em especial fazia um calor dos infernos. Cíntia passou direto pelo bando de garotos bêbados e abriu a geladeira procurando por uma jarra d'água. Ela parecia ligeiramente tonta e pálida, e o cabelo escuro molhado nas pontas somado com o vestido totalmente transparente e solto davam uma impressão de que ela fora mergulhada na banheira, torcida e pendurada por pouco tempo no varal.
Laila estava ligeiramente preocupada com a amiga, que provavelmente estava passando mal por não ter comido nada, ou por ter comido alguma coisa, o que acontecia freqüentemente, inclusive com ela. Mas, Cíntia sabia se cuidar, então não havia motivo para estragar a sua festa. Ela estava mais hiperativa que o normal, saltitando e balançando o cabelo comprido incessantemente. Avistou Vivi sentada na bancada da cozinha, totalmente entediada, com uma daquelas camisetas-muito-grandes insanamente cool, sacudindo as pernas a trinta centímetros do chão. Ela contornou o bando de meninos barulhentos e deu um sorriso para a amiga, pulando ao seu lado e fazendo uma careta quando a bunda encostou no mármore gelado.
"E aí" Viviane perguntou, colocando uma mecha do cabelo alisado para trás da orelha.
"Vamos dançar?" disse Laila, ansiosa. Ela estava doida para subir na bancada e dançar até morrer.
"Vamos!" respondeu a amiga, que visivelmente esperava por uma parceira de bancada a noite inteira. "Vamos lá pra fora", ela acrescentou, indicando a porta de vidro que separava a cozinha da varanda. Lá fora que se encontrava a maior parte das pessoas, em volta do pequeno palco do qual um DJ meio fraquinho parecia tentar comandar a festa.
No caminho, Laila esbarrou em um rapaz alto, moreno e de covinhas fofinhas. Ele deu um sorriso meio sedutor, meio pedindo desculpas pela cerveja derrubada em todo o peito mal-coberto de Laila e meio querendo limpar tudo com a língua. Bom, ela não ia deixar escapar uma oportunidade sorridente e bonitinha como essas, mas antes ela precisava descer até o chão naquele palquinho pelo menos uma vez.
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Ele estava encostado na parede ao lado da porta do banheiro, um lugar meio estranho pra se ficar, segurando um copo de cerveja e parecendo deliciado pela visão de uma garota alta, magra, mal enrolada num casaco azul-marinho visivelmente emprestado de alguém bem maior que ela, o cabelo castanho-claro embaraçado e meio suado, mas ainda assim linda, indo na direção. Ela sorriu, puxando as mangas do casaco, e se postou ao lado dele, de frente para a piscina cheia de copos plásticos, algumas latinhas de cerveja e um tênis. Ele retribuiu o sorriso, puxando-a para longe do barulho, atrás da churrasqueira.
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Eram quatro da manhã. Alguns casais haviam se formado e se espalhavam pelo gramado úmido em volta da piscina, outras pessoas procuravam cantos para fumarem em paz, em grupos, e outras permaneciam bravamente na pista de dança. André não fazia parte de nenhuma dessas categorias. Ele saiu da varandinha onde Sérgio e mais dois ou três caras fumavam uma maconha vagabunda, desceu as escadas e sentou num sofá branco embaixo de um quadro enorme e horroroso, e folheou uma revista velha de decoração que encontrou na mesinha à sua frente. Que porre. Ele devia estar muito feio, ou muito chato, porque ninguém parecia querer falar com ele.
Tadinho.
De repente, num movimento de cabelos escuros e lisos, Cíntia desabou no sofá ao seu lado, parecendo mal-humorada e aborrecida. Ela deitou a cabeça no colo dele, fechando os olhos, cansada. Ele se curvou e deu-lhe um beijo na testa, numa atitude protetora e carinhosa que espantou até a ele, mas Cíntia não estava em condições de perceber nada. Ela contraiu os lábios ligeiramente num sorriso bobo e ele afastou um fio de cabelo do rosto úmido e gelado da garota.
"Vamos embora?", ele sussurou, abaixando a cabeça. Ela murmurou concordando.