sexta-feira, 28 de novembro de 2008

XX

A cozinha era apertada, verdade, mas era o suficiente para manter entretidos por horas três amigos. Ou, excepcionalmente naquela noite, dois.

"Parei de fumar", declarou Lígia.
Marvin, surpreso, parou com a mão apoiada na porta da geladeira e olhou para a garota.
"Sério? Faz quanto tempo?"
Ela pensou um pouco.
"Uma semana e seis dias", respondeu, com orgulho.
"Mas por quê?", ele perguntou, estranhando. Era a marca registrada da amiga. Bom, uma delas.
"Sabe, é uma emissão desnecessária de CO2 no ambiente."
Como se ela se importasse.
"Ok," disse ele, abrindo a geladeira e pegando um litro de leite. "E o seu organismo?"
Lígia deu de ombros.
"Ele pode lidar com isso."

sábado, 22 de novembro de 2008

IXX

"Então, eu estava pensando. Quando você fica viciado fisicamente em uma droga, é que suas células passaram a precisar daquilo pra funcionar, certo? É a mesma coisa com comida. Tipo, proteína, carboidrato"
"Claro que não", interrompeu, meio pensando por que estava sequer considerando discutir uma afirmação absurda dessas. "Mesmo que você não dê comida para uma pessoa desde que ela nasceu, ela vai morrer se não comer."
A outra fez uma cara de impaciência.
"Não, é claro. Só que você não precisa realmente disso tudo. Tipo, não de tudo que você come."
"Sei."
"Não, presta atenção. Você só precisa de um mínimo necessário desse tanto de carboidrato que você ingere. Quase nada. O resto é vício. Se você for diminuindo a quantidade, você vai viver só do mínimo."
"Pára de falar besteira."
"Não, pensa comigo: uma daquelas crianças cabeçudas africanas consegue ficar muito mais tempo sem comer do que uma criança barriguda americana. E por quê? Porque a americana tá viciada em glicose/carboidrato/etc."
"É, com certeza."
"Também tem a compulsão. Tipo, a vontade de comer, essas coisas." Ela parou, ao ver a cara da amiga. "Faz sentido, tá!"
"É, Ana, você vai ganhar o Nobel de medicina por essa teoria."

domingo, 9 de novembro de 2008

XVIII


Aggressiveley we all defend the role we play
"Quer um café?", veio a pergunta.
Pensei um pouco. Meu estômago borbulhou.
"Não, obrigado", respondi. "Tem um salgadinho, batata, alguma coisa assim?"
"Acho que não," ela respondeu. "A gente pode descer pra comprar."
Olhei para mim. Descalço, os joelhos ossudos, cabeludos e tortos depois de um short cinza, daqueles de pijama, uma regata branca meio encardida. O estômago reclamou de novo. Ok, vamos lá.
"Você vai lá?"
"Você vai comigo?", eu quis saber. Não fazia questão.
"Não, vou ficar aqui e botar esses pratos na máquina."
Ok.
Calcei um chinelo preto, enfiei duas notas de dez no bolso e fui daquele jeito mesmo na padaria. Perguntei se o pão tinha saído agora.
"Há uns dez minutos."
"Sei," disse baixinho. "Me vê cinco."
Peguei uma bandeijinha de queijo enquanto esperava.
"Só isso?"
Só. Com o pão e o queijo em uma mão, peguei uma garrafa de coca com a outra e fui até o caixa.
"Mais alguma coisa?"
"Hm... não, só isso", respondi. "Ah, e um Trident azul. Não, o azul claro. E um marlboro light."
"Maço ou box?"
E faz diferença, porra?
"Box."
O cara enfiou tudo em dois saquinhos plásticos e eu saí. Putz, não trouxe isqueiro.
Puxei umas moedinhas do troco que eu tinha jogado no saquinho da coca e voltei ao caixa.
"Me dá uma caixa de fósforo," eu disse, batendo as moedinhas no balcão. "Brigado."
Acendi o cigarro, e fui voltando pra casa. A grama estava meio úmida, o cimento quebrado da calçada meio lamacendo, sujando os lados meus pés.
Toquei a campainha. Esqueci de levar a chave.
Entrei, botei tudo em cima da mesa da sala, fui até o computador e apertei play no Windows Media Player já aberto. Amor, vem cá. Puxei-a pela cintura, e botei-a para dançar.
"Don't you wanna come with me?", cantarolei em seu ouvido. Ela estava horrível, com os olhos meio vermelhos e meio manchados de rímel, com uma camiseta branca enorme por cima de uma lingerie preta, o que ela usava sempre.
"Don't you wanna feel my bones" ela respondeu. "On your bones?"
Nós dois somos anormalmente magros, então essa era a nossa música-piadinha-iterna.
"Que horas são?", eu perguntei.
"Dez pro meio-dia."

sábado, 25 de outubro de 2008

Sobre ser sentimental

se quiser que eu finja, eu finjo
se quiser que eu minta, eu minto
se quiser que eu chore, eu choro
se quiser que eu sinta
me desculpe
/quot

domingo, 31 de agosto de 2008

XVII

image Daquelas festas de quinze anos, naqueles salões de clubes no Lago Sul, que mobilizam trezentos adolescentes e quinhentos empregados, funcionários e diversos trabalhadores envolvidos com o buffet, a ignorável decoração das mesas, os vestidos, a música de criatividade anulada e motoristas de táxi às quatro da manhã.

Cíntia e Laila passaram a tarde assistindo E! e fumando LAs, com umas três latinhas de cerveja. Sim, porque o pai de Laila viajara, e elas tinham o apartamento só para as duas. E quem mais quisessem chamar.

Às dez horas, o início da festa segundo o convite, procuraram os sapatos, tomaram banho, puseram os vestidos, passaram rímel e chamaram um táxi.

Chegando lá, fotos, conversas amenas, olhares sigificativos, penetras, bolinhas de queijo, água, valsa, vestidos horríves, eletrônica, axé, funk, eletrônica...

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Podia ser o álcool agindo. Às três e vinte, depois de seis taças de champanhe e inúmeros copos de drinks coloridos de nomes criativos, Cíntia se destacava na pista, sacudindo os ombros, os pés (um dos poucos ainda calçados com os saltos altos, e sem sinal de desconforto) e os braços nas melhores combinações de movimento, rodeada por pessoas que não conhecia. E por uma garota um pouco mais alta, que parecia brilhar junto e em harmonia com ela. Balançava os cabelos claros e os braços finos, o vestido azul-água e marrom dançando também. Os rostos e os corpos das duas se moviam juntos, os olhos se encontravam e elas sabiam ser o centro das atenções. Cíntia percebeu o que estava acontecendo, e, antes que pudesse tirar qualquer conclusão, a garota se adiantou e fez o que estava ameaçando a algum tempo.

Cíntia já beijara garotas. Muitas, na verdade, na frente de outras pessoas, de pessoas que não deviam estar lá inclusive. Mas nunca sem um impulso social, sem levar tudo na esportiva alcoólica. Elas tropeçaram para fora da pista, ignorando poucos olhares que as acompanharam, e seguiram automaticamente para a cabine de deficiente do banheiro feminino, onde Cíntia teve o maior e melhor orgasmo de toda a sua vida.

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...axé, forró, e tomaram outro táxi, acompanhadas de André e um amigo loiro e alto dele, com uma gravata azul saindo do bolso da calça e o paletó escuro pendurado no ombro, de volta para o apartamento do pai de Laila.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

XIV.I

image Parou num boteco ali por perto, entre uma floricultura escura e a calçada cheia de calombos e placas de cimento quebradas. Acenou com a cabeça pedindo uma cerveja, que foi batida com ênfase contra o balcão gorduroso à sua frente. Pagou e saiu.

Estava frio pra cacete. Meteu uma mão no bolso da jaqueta, a outra gelando em contato com a garrafa, e fez um pequeno esforço, como quem testa uma teoria desinteressante, para buscar um pensamento, uma lembrança, uma idéia. Pensar na vida. Não conseguia, constatou, nem queria, nem precisava.

Por dois centímetros não pisou numa merda de cachorro na grama, e por dois segundos não foi atropelado por um fiat branco, que ia a 135 km/h, enquanto atravessava o eixão em lento ziguezagueado.

sábado, 9 de agosto de 2008

XV

Cíntia recostou na cadeira e percebeu que o que ela sentira nem era tão grande assim.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Dilema

Tá acabando, só tem mais dois. Vou acender esse. Não, não vou te dar o último. Vou, vou comprar outro maço, mas eu quero saber que tem um aí ainda. Quando eu comprar outro eu te dou esse cigarro. Mas... qual eu compro? Nem sei se eu vou comprar outro. Eu não quero ficar, sei lá, dependente. Eu também não quero dizer "vou parar", porque eu não quero admitir que eu comecei. Mais uma coisa pra gastar dinheiro, como se já não bastasse chiclete e ônibus... Ok, a gente para em alguma banca e compra outro maço. Mas qual? Eu não quero comprar outro Marlboro. Eu sou totalmente contra a filosofia do Marloboro, é tipo, comum. Carlton, eca. Todo feio e com gosto de bunda. Derby é coisa de pedreiro viciado que não tem dinheiro pra gastar mas é viciado em nicotina. Hollywood, não. Eu gosto de Black, mas Black é tipo chocolate, é para quando você tem com quem dividir ou uma ocasião especial. Porque é muito ridículo fumar Black, é todo preto e metido a besta, com aqueles sabores gays, é mais caro que os outros, não se fuma Black sem que alguém olhe e pense "hm, puta ou bicha designer". É coisa pra quem fica "oh, olhe só como eu sou cool, além de conseguir acender o isqueiro, eu fumo um cigarro preto, com a caixinha bonita e que é mais caro que os outros normais, haha", coisa pra gente que quer chamar atenção. LA é igual ao Black, a mesma caixinha, o mesmo preço, os mesmos sabores, só que é pobre! É todo mal feito e nojento, o fumo fica todo colado cola que eles usam pra prender o papel, parece sujeira. Camel é bom, mas os últimos dois maços que eu comprei eram Camel, e ele é todo forte e tudo mais, de filtro amarelo, fumaça enorme e panz. Mas favorece trocadilhos adoidado, fumando "camel", haha. Acho que não vou comprar nenhum não. Vou pegar esse dinheiro e guardar, pra comprar meu óculos escuros. Ficar gastando dinheiro com essas coisas, não é nem sorvete nem nada, não faz bem, não te deixa mais feliz, só te deixa fedorenta e com aquele suspense quando chega em casa, "será que vão perceber?", com medo de encontrar algum conhecido na rua, nenhum benefício. Além de foder com o pulmão, ter veneno de rato e 2700 outras substâncias tóxicas, fora a nicotina. Acho que vou comprar outro Marlboro light mesmo. Pelo menos é light, haha.

"Pois não?"

Oi, moça, tem Black?

"Tem."

Me dá um de menta?

Apesar do sol e da lua e das estrelas e do vento o mundo era silencioso vazio e pequeno com pouco espaço pra viver e demais pra pensar no que fazer e no que não fazer e no que não fez e no que não está fazendo porque não consegue achar espaço pra parar de pensar no que não deve ou no que deve mas não gosta o que é quase tudo nesse mundo cheio de espaço e com pouco ar pra parar de respirar.

sábado, 12 de julho de 2008

XIV

image De cabeça baixa, chutando as pedras (por assim dizer) do caminho, cigarro pendendo entre os dedos, jaqueta de couro e um tênis qualquer, o cabelo castanho embaraçando com as folhinhas que caíam das árvores das entrequadras desertas, à uma e meia da manhã daquela quarta-feira.

O apartamento estava vazio quando ele catou peças de roupa de cima do teclado do computador, confirmou a presença do maço de cigarros baratos no bolso da calça e desceu os três andares pela escada.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

XIII

image O Sol forte, o vento úmido e as risadas distantes davam ao mundo um tom sépia de cores brilhantes, cheiro de água salgada, óculos escuros, água de coco, areia entre os dedos. Era possível escutar algumas notas de uma bossa conhecida, ou talvez fosse só imaginação. De qualquer modo, não fazia diferença, a música estaria lá de qualquer jeito. Porque o importante é o jeito que o mundo chega até nós, passando por todos os sentidos que o distorcem, não a realidade. Essa é distante e abstrata, inatingível e desinteressante.

Com um gesto preguiçoso, Laila levou a mão aos cabelos cor-de-praia deu um nó, desleixado, enfiando um grampo que tinha preso à roupa. No movimento, seus pés descalços arrastaram-se na pedra portuguesa, causando uma sensação agradável e iluminando uma única lembrança cor-de-laranja, de sua tia, do verão e dos ombros salgados e morenos. Dos olhos quase fechados, sonolentos, como agora. Sorriu.

Tudo parecia tão longe, tão confuso e tão cheio de contraste, toda aquela vida agitada era tão afastada dela no momento. Mesmo assim, sabia que, se um dos dois momentos era um sonho, era esse aqui. A vida seria terrível se fosse um sonho sempre, do qual nunca acordamos. Era como viver involuntariamente sob o efeito de alguma droga, sem direito a rehab.

sábado, 28 de junho de 2008

XII

image  Estava frio, apesar do Sol forte. O vento que soprava e balançava a superfície brilhante do Lago era gelado, e fazia o cabelo de Cíntia mudar de lugar constantemente, batendo nas lentes dos enormes óculos escuros.

Era terça-feira, e ela estava sentada numa mesinha perto da água, fora da sombra do guarda-sol, com um vestido claro e leve e casaco lilás. Havia uma pequena bolsa em cima do tampo de vidro, bordada com cristais, miçangas e lantejoulas em cores pastel, por cuja abertura podia-se ver um maço de Marlboro lights, um iPod prata e algumas notas de vinte. O celular estava ao lado da bolsa, o descanso de tela mostrando a hora: nove e treze.

Tomou um pequeno gole do chá gelado de pêssego, fazendo os cubos de gelo tilintarem;
queria mesmo é uma cerveja.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

X.I

image Gloria, we lied.

"Quem é ele?", perguntou André, indicando um garoto alto, magro de cabelos cacheados que cutucava desnecessariamente a carne na churrasqueira, ao lado de Cíntia, que esperava pacientemente uma fatia não-crua da picanha pingando sangue.

Fábio seguiu o olhar do amigo, pensou por um momento e deu de ombros.

"Acho que é o primo da Laila", respondeu.

"Oi", disse um garoto de covinhas e bochechinhas, os cabelos cacheados, a Cíntia.

"Tudo bom?", ela respondeu. Cíntia estava num humor excepcionalmente bom, com seu short azul-bebê e a camiseta branca transparente por cima do biquine marrom, o cabelo solto e óculos de sol. Esses momentos-saúde faziam bem de vez em quando.

"Gosta dessa música?", ele perguntou, referindo-se à até-então-não-notada música do Maroon 5, alguma das novas.

Cíntia deu de ombros, concordando superficialmente. Não tinha escutado direito, nem se importava. Estava curtindo o momento, e achando o máximo.

Mas ele não desistiria tão fácil. Fernando, aliás. O nome dele.

Cíntia encostou a cabeça no ombro de Fernando, sentindo o calor sob a camiseta dele. Estavam os dois na beira do lago, assistindo ao pôr-do-sol. Não que desse para ver alguma coisa, mas o céu mudando de azul para amarelo, depois laranja, vermelho, até roxo e verde, era a coisa mais intensa que ela já tinha sentido. Não só por causa do céu.

Fernando passou uma das mãos pelos ombros dela, que tremia de frio, por causa do cabelo ainda molhado da piscina e da camiseta sem mangas. Cíntia se aconchegou contra seu corpo, passando os dedos pelo jeans claro e áspero da sua calça jeans. O que ela sentia era grande, e não me venha pensar besteiras. Subia pela garganta, inflava o peito e formigava os pés. Ela sentia nas juntas e em todos os músculos. Ou então era só o período do mês.

"E aí, gostou?", perguntou Laila, depois de todos os outros já terem indo embora. Ela e Cíntia estavam na banheira do quarto dos pais de Laila, que tinham viajado. A banheira tinha nove metros quadrados, banquinhos e hidromassagem. Era quase uma piscina.

"Do quê?", Cíntia perguntou, lendo distraidamente um vidro de shampoo. Ela estava com muito sono e se sentindo meio irritantemente eufórica, não o melhor estado de espírito para conversas.

"Do meu primo!", disse Laila, rindo. "Eu vi vocês lá em baixo, no maior love."

"Ah," ela respondeu, olhando para baixo. "A gente nem ficou."

quinta-feira, 24 de abril de 2008

XI

image Chovia tanto que os bueiros entupidos não davam conta de toda a água que se acumulava nas tesourinhas, agora submersas, causando um engarrafamento ainda maior do que o esperado para as seis da tarde.

Cíntia abriu a bolsa mecanicamente e verificou o visor do celular. Nenhuma chamada perdida. Ao seu lado, sua mãe resmungava mal-humorada, reclamando do tempo, do trânsito e de ter saído de casa a essa hora, sacudindo as pulseiras douradas com impaciência.

Cíntia afundou no banco do carro, cruzando os braços. Era sexta-feira, ela estava voltando do colégio depois de ter estudado durante horas. O cabelo molhado estava preso num rabo-de-cavalo no alto da cabeça e ela estava vestindo a calça jeans de que menos gostava, larga e fora de moda e não tinha nada para fazer durante todo o final de semana.

Jogou a bolsa, os livros e os cadernos em cima da cama, tirou os tênis, a camiseta úmida do uniforme e o sutiã enquanto atravessava o quarto, largando tudo no chão, pelo caminho. Entrou no banheiro e tirou a calça jeans horrorosa, jogando-a de qualquer jeito em cima da tampa fechada do vaso e abriu a água quente da banheira.

Vestindo só a calcinha branca e pequena de algodão, vasculhou o armário do lado do espelho atrás dos sais de banho e sabonetes importados, que ela sempre tinha pena de gastar. Não que não fosse ganhar outros no aniversário seguinte. Deu um suspiro e despejou todo o conteúdo de um vidrinho amarrado com uma fita cor-de-rosa, o rótulo de papel reciclado bege, depois o resto do tubo de um sabonete líqüido que tinha cheiro de... sabonete. E de azul-turquesa.

Enquanto olhava a banheira encher, soltou o cabelo, que estava úmido e amassado, pegou o roupão lilás e pendurou-o num gancho ali do lado. Depois, tirou a calcinha  e entrou na banheira, sentindo a água perfumada que queimava a pele, mas aliviava a dor nas costas e nas pernas. Desligou a torneira, tampou o ralo e fechou os olhos.

terça-feira, 22 de abril de 2008

brigada, ta.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

X

"Acordei com a alma fedendo a cigarro, e o resto a remorso. Ou melhor, receio do remorso."

A cortina entreaberta deixava passar alguns raios indesejados do sol da tarde para dentro do quarto mal-cheiroso. O ar estava abafado, mas Sérgio não sentia calor sob o edredon, nem deveria sentir muito mais coisa nas próximas horas. Isso se seu celular não estivesse tocando intermitentemente nas últimas duas horas, e se dessa vez ele não tivesse escutado.

Ele abriu os olhos com dificuldade, e esticou um braço cegamente em direção à mesa de cabeceira, para descobrir que o maldito celular estava provavelmente no bolso da calça da noite anterior, que se encontrava a uns dois metros de distância do alcance de suas mãos, bem mais do que ele poderia suportar. Com o maior esforço de sua vida, ele levantou e andou até a cadeira abarrotada de roupas sujas, cadernos de provas e algumas meias. Procurou pelo aparelhinho que continuava a vibrar loucamente ao som de Hello Moto (ele não tinha mudado o toque?), e apertou o botãozinho verde.

O primeiro alô saiu rouco e inaudível. Limpou a garganta com força e tentou de novo.

"Alô?", disse, passando os dedos pela barriga descoberta, parecendo muito um quarentão de ressaca. "Quem é?"

"Cíntia! Você não tem o meu número gravado?"

Claro que ele tinha, mas não tinha pensado em olhar na telinha antes de antender.

"Ah, oi. Tudo bom?" Ele continuava fedorento e meio grogue, e agora que tinha levantado e seu cérebro começava, lentamente, a funcionar, ele percebeu que estava um calor dos infernos ali no quarto.

"A gente tá te ligando há umas cinco horas. Tá todo mundo na casa da Laila, por quê você não veio?", disse Cíntia, e agora ele podia ouvir a batida meio eletrônica ao fundo, gritos e barulho de gente pulando na piscina.

"Ahm... O Vinícios também tá aí?", ele perguntou. Os dois beberam, fumaram e fizeram sei lá mais o quê e tudo que tinham direito na noite anterior. Sérgio não lembrava nem como chegara em casa.

"Tá, ele chegou há uns vinte minutos", respondeu a garota.

"Hm, que horas são?" perguntou ele, olhando em volta e procurando um relógio. Não encontrou.

"Quatro e quarenta e dois."

Porra, seus pais não deviam estar em casa, senão ele nunca poderia ter acordado tão tarde sem receber um esporro e ameaças pela porta.

"Ok... eu tou indo. Beijo, tchau", ele disse, rumando para o banheiro. Tudo que precisava era de um bom banho. E de outro porre.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

off

Bad timing

"Eu não quero que você vá embora", pediu ele, e lançou seu corpo contra o dela, envolvendo-a com seus braços fortes e pressionando os lábios quentes e molhados contra os dela. Por alguns segundos, a garota ficou tensa e surpresa sob as mãos que seguravam firmemente sua cintura, com o desespero nos seus beijos. Ela relaxou e ergueu lentamente uma das mãos, tocando o pescoço dele com as pontas dos dedos, depois passando-os de leve pela bochecha áspera da barba por fazer, e finalmente o fez parar e afastou-o.

"Isso vai deixar tudo mais difícil", ela disse, reunindo todo o autocontrole que conseguiu encontrar e encarando-o nos olhos. Aquilo tinha sido desejado, esperado e ansiado por tanto tempo... Mas agora era uma péssima hora para acontecer.

Ele levantou os olhos tão castanhos e normalmente tão alegres, agora brilhante das lágrimas que não deveriam estar ali, fazendo parte daquela súplica silenciosa.

A garota segurou as mãos dele entre as suas, agora geladas, e ele entrelaçou os dedos nos dela, desviando o olhar. Ela deu um passo na direção dele, abraçou-o e murmurou um consolo mal-estruturado e ineficiente em seu ouvido.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

off

Alterego

Sinto os caminhos batidos e as garrafas quebradas. Sinto o sussurro da Lua e do povo na rua. Sinto a clavívula tão sublinhada das unhas pintadas. Sinto teu cheiro de coisa errada, sinto a vida que me tropeça as palavras. Sinto os que catalisam. Sinto a douçura que me leva às favas. Quis não dormir e fiz do Sentir um desperdício. Vi e vejo o traço das traças na roupa lavada. Quebrei o sentido desse ruído. Tentei verso e fiz o inverso. Achei e desencaixei os encantos do amigo manco. Larguei o baralho e liguei a televisão, assistir SBT.

Alterego nem tanto.

sábado, 12 de abril de 2008

IX

image "Meu nome é Micaela, mas pode me chamar de Mika. Eu odeio meu nome", disse, mal-humorada, a garota de short verde limão, depois de dar um longo trago no Camel entre os dedos sujos de tinta preta e marrom.

As outras pessoas espalhadas pelo gramado ignoraram o comentário, e continuaram a fazer o que estavam fazendo, trocando as músicas no iPod, comendo frutas cristaizadas, acendendo cigarros ou apertando furiosamente os botões de celulares, como se deitar-se na grama, no Parque da Cidade, às nove horas da manhã de uma terça-feira nublada, vestindo shorts de seda, camisetas finas e transparentes e ankle boots azul-turquesa fosse a coisa mais normal do mundo.

A uns três metros dali, um garoto, que não devia ter mais de 16 anos, clicava ritmadamente numa câmera grande e de aparência profissional, os cotovelos ossudos formando ângulos estranhos. A poucos metros dele, um segundo cara caminhava lentamente entre as pessoas, com uma filmadora grande e cara apontada aparentemente a esmo para os rostos dos integrantes daquele grupo singular.

Alguns poucos pedestres, corredores, ciclistas, passavam ali por perto, estranhavam a cena, mas não se detinham muito tempo.

Passados quarenta minutos, um pouco mais ou pouco menos, surgriu, deus sabe de onde, um homem vesindo calças xadrez cinza e roxo, o cabelo loiro visivelmente artificial, com uma xícara de café fumegante em uma das mãos e um picolé ainda fechado na outra. Ele passou o picolé ao garoto fotógrafo e disse, a meia voz:

"Acho que já está bom, Roberto. Tchau."

As pessoas antes estiradas no chão se levantaram e passavam as mãos na parte de trás das pernas, arumavam o cabelo ou coçavam o pé. O homem-da-filmadora amarrava o cadarço do tênis, agachado ao lado de uma pilha de copos descartáveis e caixas transparentes de frutas cristalizadas.

Roberto encarou o sorteve em suas mãos, e pendurou a câmera no pescoço. Depois virou para o homem ao seu lado, que agora segurava, além do café, um iPhone que pressionava contra a orelha, escutando pacientemente o zumbido que saía do pequeno auto-falante. Roberto esperou ele desligar.

"Você tem como me dar uma carona até a W3?", perguntou.

O homem o fitou.

"Você não devia estar na escola agora?", ele disse, levantando uma das sobrancelhas.

"É... devia", respondeu o garoto, por fim.

"Sua mãe sabe disso?", continuou ele, ainda desconfiado.

Houve uma pausa enquanto Roberto tirava o cartão de memória da câmera.

"Espero que não", respondeu, e entregou o cartão ao homem. Depois abriu o pacote rosa-choque do picolé e deu uma lambida. O gosto era horrível.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

VIII

image "Come, quero ver" disse Lígia, rindo, para Hugo. Ele acabara de misturar uma variedade de restos de comida que eles encontraram na geladeira da cozinha do apartamento da garota e colocara tudo em cima de uma torradinha integral.

Para espanto e deleite de Lígia e Marvin, Hugo abriu a boca o máximo que pôde e engoliu a massa marrom e pastosa, com cara de nojo. Os outros dois deram gritos e gargalhadas ao mesmo tempo.

Marvin jogou o resto da torrada na pia, encheu apressado um copo de água e tomou num gole só. Parou e encarou os outros dois.

"Eca", declarou.

Lígia sentou na pia de mármore bege, fazendo a camiseta cinza e grande que ela vestia levantar e revelar um short jeans verde marca-texto. Pegou o copo de coca-cola com gelo que estava ali e deu um gole, olhando para Hugo. Ele retribuiu o olhar divertido, depois abriu a geladeira e tirou uma garrafa de cerveja já aberta da porta.

"Seus pais realmente não se importam das cervejas sumirem da geladeira, né?" ele perguntou, dando um gole. Ele sabia que não, mas não custava nada reforçar.

Lígia não respondeu. De repente, deu um pulo e exclamou: "EU AMO ESSA MÚSICA!", e saiu dançando e sacudindo os braços pelo corredor em direção ao quarto, de onde vinha o som de Teenagers, do My Chemical Romance.

Marvin e Hugo, distraído, que ainda carregava a cerveja, a seguiram devagar. Marvin parou à porta e disse, provocando: "Que emo, Lí."

Ela deu de ombros, rindo. A música acabou, e, aos poucos, o sorriso foi desaparecendo do seu rosto. Ela se jogou na cama, entre as várias almofadas amarelas, dando um longo suspiro. Os gêmeos se olharam rapidamente e deitaram, ao mesmo tempo, um de cada lado da garota.

"Eu estou meio triste", ela disse, olhando para a almofada branca com cara de elefante em suas mãos e sacudindo os pés com as meias verdes mais velhas.

"Por quê?", perguntou Hugo, virando para ela e a olhando profundamente com seus olhos cor de chumbo, a cabeça apoiada em uma das mãos.

"Sei lá", ela respondeu, fazendo uma cara meio contrariada e colocando o elefante de lado.

"Não fica triste", pediu Marvin, fechando os olhos e a envolvendo num abraço que foi completado por Hugo, do outro lado.

"É, não fica triste", reforçou o irmão, dando um beijinho delicado na maçã do rosto da garota.

Ela olhou para o teto, com um sorriso imperceptível no canto dos lábios, e sussurrou: "Não tou mais triste."

A câmera segue para o teto, acompanhando os olhos de Lígia que se reviram, e a cena escurece, deixando o desfecho em aberto.

segunda-feira, 31 de março de 2008

y.II

agfa_ferrocolor_60_gelb Lígia nunca pensou em se mudar de Porto Alegre. Mas quando seu pai foi transferido para Brasília, ela, aos nove anos de idade, não protestou. Tinha apenas um ou dois amiguinhos na escola, de quem não gostava muito. No primeiro dia de aula na capital, as crianças estranharam o sotaque forte, mas logo foram conquistado pela garotinha dos grandes olhos verdes, muito alta para a idade e com um sorriso sempre presente. Na sexta série, quando Hugo e Marvin entraram no colégio, ela logo ficou muito amiga dos dois, e desde então eram vistos sempre juntos. Por esses e outros motivos, ela foi vítima de vários comentários maldosos e invejosos, aos quais ela respondia com verdades incovenientes, vergonhosas e incrivelmente bem formuladas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

VI.I

image Viviane sentou na bancada de mármore bem no meio da cozinha, sacudindo uma caneca de plástico da Minnie cheia de whisky e gelo e vendo Fábio, seu namorado, e Vinícios tentarem encenar do filme a que eles assistiram no dia anterior através de berros bêbados acompanhados de movimentos aleatórios e esparsos, recebidos com assobios e gritos da platéia de machões embriagados. Meninos, ela suspirou, olhando para os lados.

Ela viu dois rapazes entrarem entrarem na cozinha, André, alto e moreno, com a barba por fazer, e Sérgio com o cabelo castanho-claro cacheado caindo em volta dos olhos, acentuando o ar de chapado-sonolento-sensual que ele exibia. Eles eram gatos, e era meio sexy que eles estivessem quase sempre juntos, fazendo orgias selvagens com as duas amigas malucas, Cíntia e Laila.

Falando no diabo, segundos depois Laila entrou se sacudindo toda em um biquini branco e minúsculo, embora estivesse fazendo dez graus lá fora. Mas, eles estavam aqui dentro, e na cozinha em especial fazia um calor dos infernos. Cíntia passou direto pelo bando de garotos bêbados e abriu a geladeira procurando por uma jarra d'água. Ela parecia ligeiramente tonta e pálida, e o cabelo escuro molhado nas pontas somado com o vestido totalmente transparente e solto davam uma impressão de que ela fora mergulhada na banheira, torcida e pendurada por pouco tempo no varal.

Laila estava ligeiramente preocupada com a amiga, que provavelmente estava passando mal por não ter comido nada, ou por ter comido alguma coisa, o que acontecia freqüentemente, inclusive com ela. Mas, Cíntia sabia se cuidar, então não havia motivo para estragar a sua festa. Ela estava mais hiperativa que o normal, saltitando e balançando o cabelo comprido incessantemente. Avistou Vivi sentada na bancada da cozinha, totalmente entediada, com uma daquelas camisetas-muito-grandes insanamente cool, sacudindo as pernas a trinta centímetros do chão. Ela contornou o bando de meninos barulhentos e deu um sorriso para a amiga, pulando ao seu lado e fazendo uma careta quando a bunda encostou no mármore gelado.

"E aí" Viviane perguntou, colocando uma mecha do cabelo alisado para trás da orelha.

"Vamos dançar?" disse Laila, ansiosa. Ela estava doida para subir na bancada e dançar até morrer.

"Vamos!" respondeu a amiga, que visivelmente esperava por uma parceira de bancada a noite inteira. "Vamos lá pra fora", ela acrescentou, indicando a porta de vidro que separava a cozinha da varanda. Lá fora que se encontrava a maior parte das pessoas, em volta do pequeno palco do qual um DJ meio fraquinho parecia tentar comandar a festa.

No caminho, Laila esbarrou em um rapaz alto, moreno e de covinhas fofinhas. Ele deu um sorriso meio sedutor, meio pedindo desculpas pela cerveja derrubada em todo o peito mal-coberto de Laila e meio querendo limpar tudo com a língua. Bom, ela não ia deixar escapar uma oportunidade sorridente e bonitinha como essas, mas antes ela precisava descer até o chão naquele palquinho pelo menos uma vez.

Ele estava encostado na parede ao lado da porta do banheiro, um lugar meio estranho pra se ficar, segurando um copo de cerveja e parecendo deliciado pela visão de uma garota alta, magra, mal enrolada num casaco azul-marinho visivelmente emprestado de alguém bem maior que ela, o cabelo castanho-claro embaraçado e meio suado, mas ainda assim linda, indo na direção. Ela sorriu, puxando as mangas do casaco, e se postou ao lado dele, de frente para a piscina cheia de copos plásticos, algumas latinhas de cerveja e um tênis. Ele retribuiu o sorriso, puxando-a para longe do barulho, atrás da churrasqueira.

Eram quatro da manhã. Alguns casais haviam se formado e se espalhavam pelo gramado úmido em volta da piscina, outras pessoas procuravam cantos para fumarem em paz, em grupos, e outras permaneciam bravamente na pista de dança. André não fazia parte de nenhuma dessas categorias. Ele saiu da varandinha onde Sérgio e mais dois ou três caras fumavam uma maconha vagabunda, desceu as escadas e sentou num sofá branco embaixo de um quadro enorme e horroroso, e folheou uma revista velha de decoração que encontrou na mesinha à sua frente. Que porre. Ele devia estar muito feio, ou muito chato, porque ninguém parecia querer falar com ele.

Tadinho.

De repente, num movimento de cabelos escuros e lisos, Cíntia desabou no sofá ao seu lado, parecendo mal-humorada e aborrecida. Ela deitou a cabeça no colo dele, fechando os olhos, cansada. Ele se curvou e deu-lhe um beijo na testa, numa atitude protetora e carinhosa que espantou até a ele, mas Cíntia não estava em condições de perceber nada. Ela contraiu os lábios ligeiramente num sorriso bobo e ele afastou um fio de cabelo do rosto úmido e gelado da garota.

"Vamos embora?", ele sussurou, abaixando a cabeça. Ela murmurou concordando.

sábado, 15 de março de 2008

VII

BASF_CR-II_live_60Musiquinha insuportável do despertador.
Hugo abriu os olhos assustado. Estava com o rosto enterrado no travesseiro, um braço pendia para fora da cama e o cobertor tinha caído no chão. Soltou um grunhido enquanto se virava de barriga para cima. Ai, que porra, quinta-feira.

Tateou em busca do botão que acabava com toda aquela apitação toda e bufou. Calma, só mais dois dias. Sentou bruscamente, sentindo a cabeça girar. Talvez estivesse doente, mas era só uma possibilidade. Cambaleou em direção à porta, sentindo que um dos pés tinha perdido a meia durante a noite. Argh.

A porta do banheiro estava fechada e trancada. Essa era a merda de ter um irmão gêmeo. Os seus pais acham que vocês podem dividir tudo. Inclusive o banheiro. Ele voltou para o quarto e sentou na poltrona verde-limão, totalmente consciente de que deveria estar enfiando os livros na mochila ou procurando os tênis, mas não estava em condições de fazer nada a não ser voltar a dormir.

"Tá frio hoje" disse Marvin ao irmão, colocando as mãos nos bolsos do casaco. Ele não agüentava mais esse frio úmido insuportável, mas gostava de poder usar casaco e cachecol. E Brasília ficava muito from uk quando estava nublado... e quando não tinham muitos brasilienses por perto para estragar a paisagem.

"Tanto faz", respondeu Hugo, totalmente mal-humorado. Eram seis e meia da manhã, eles esperavam a droga do transporte cheio de gente feia e fedorenta embaixo do bloco. Um vento gelado e molhado soprava intermitentemente, ele não conseguia deixar mais de dez segundos em cada música e Marvin parecia totalmente de bem com a vida. Que porre.

Já estava antecipando o tédio intenso a que seria submetido nas próximas cinco horas, aulas, aulas, AULAS. Que saco, os professores falando, ele tentando prestar atenção (sim, ele tentava), fazer dever, copiar matéria, concentra. Só mais dois dias.

A van barulhenta parou a alguns metros dos dois, uns três passageiros meio grogues lá dentro olharam para os dois gêmeos. Hugo sentiu um desconforto momentâneo e puxou bruscamente o trinco da porta. Sentou à janela, colocou a mochila no chão e as mãos geladas embaixo das coxas. Ele sabia perfeitamente que parecia muito um nerd-sem-amigos no momento, mas não se importou. Continuou a escutar Gang of Four como se não houvesse amanhã, o resto do mundo que se fodesse.

Ui, que revoltado.

Marvin sentou ao seu lado, colocou a grande bolsa-sacola azul-marinho entre os joelhos magros e inspirou profundamente. Será que tem alguma festa esse sábado, ele pensou. Tinha um dever de física para entregar. Tinha que comprar um pacote de Halls antes do sinal tocar. Ele repassou mentalmente a lista de coisas importantes a fazer. Ah, e ainda tinha que procurar o all star azul marinho, que parecia perdido há muito tempo.

"Tem alguma coisa esse sábado?", perguntou Marvin ao irmão, que não respondeu. Não sabia se ele estava só utilizando aquela velha técnica "não te escuto, não está vendo, tenho fones de ouvido" ou se realmente não tinha escutado. Cutucou-o levemente com o cotovelo e repetiu a pergunta.

Hugo tirou um dos fones e pensou por um instante. "Não sei, acho que aquela menina do cabelo feio chamou a gente pra ir na casa dela", ele respondeu, distraído, e recolocou o fone.

Enquanto isso, duas meninas pequenas e de cabelos sebosos cochichavam furiosamente no banco de trás, entre risadinhas e chiadinhos, se achando as pessoas mais bacanas do mundo enquanto escutavam a conversa blasé e totalmente interessante dos dois.

terça-feira, 4 de março de 2008

VI

image "Caralho, Laila, como você consegue ser tão magra e ter esses peitos tão grandes?", perguntou André da ponta da cama king-size, completamente bêbado, enquanto Laila colocava o biquíni branco de costas para ele.

Sérgio contraiu o rosto em direção às costas da garota como se avaliasse a veracidade do que o amigo acabara de dizer, mas apenas conseguiu começar a rir desesperadamente.
Cíntia procurou afastar o pensamento indignado "meus peitos também são grandes" que se formava em sua cabeça, dando um gole exagerado do frozen de morango em suas mãos e engasgando. Não que alguém estivesse em condições de perceber. Uma música insuportavelmente alta fazia vibrar as janelas do quarto, caridosamente cedido aos quatro amigos pelo dono da casa.

Estavam os quatro, Cíntia, Sérgio, André e Laila, há umas duas horas naquele quarto, conversando, bebendo e fumando. O resto da festa provavelmente estaria se perguntando o que eles faziam tanto tempo trancados sozinhos, longe de todo mundo. A verdade é que a festa acontecia onde eles estavam, e somente lá.

Laila fechou o sutiã e se jogou na cama, pousando nada suavemente em cima da barriga de Sérgio e na perna de Cíntia, que derrubou o copo e todo seu conteúdo no tapete cor de creme de aparência cara e começou a rir. Pegou o copo do chão, depositou-o na mesa de cabeceira e deitou a cabeça no colo de André, que começou a brincar distraidamente com uma mecha do cabelo castanho dela.

Sérgio recostou na cabeceira da cama, tombou a cabeça no ombro de André e concluiu que estava redondamente de porre. Mirava o teto com um olhar vago, a mente vazia e completamente alheio à qualquer coisa. A combinação vodka pura+música eletrônica tinha o colocado em um estágio de transe tão profundo que ele nem se deu conta de uma Laila semi-nua atravessada na cama de bruços, encarando-o paciente e sugestivamente, passando os dedos pela sua barriga por baixo da camiseta azul-marinho.

"Vamos descer?" perguntou a garota, sentando entre os dois rapazes com um pulo. Ela esticou as pernas e sacudiu os dedos dos pés.

Cíntia murmurou assentindo, e se mexeu um pouco antes de levantar cambaleante do colo de André, que a acompanhou até o banheiro. Ele sentou na tampa fechada do vaso, coçando a barba rala que cobria o queixo pontudo e olhando as costas cobertas pelo mini-vestido champanhe da garota. Cíntia tinha a cintura fina e ombros estreitos, o que caía bem com as blusas de alças que ela costumava usar. O cabelo castanho liso balançava suavemente enquanto ela abaixava a cabeça na pia e acenava a bunda bonita para ele. Ela se virou lentamente, apoiou uma perna na beira da banheira e pegou o chuveirinho para limpar as manchas grudentas de frozen. A calcinha dela era vermelho-cereja.

Sérgio se levantara e estava calçando o tênis azul-marinho e branco sentado na poltrona de veludo marrom perto da janela. Laila não fez nenhum movimento que indicasse a intenção de se vestir. Continuaram em silêncio a hora em que André e Cíntia voltaram do banheiro, André todo animadinho e Cíntia meio verde e com o cabelo colado na testa.

"Será que tem muita gente lá embaixo?" disse Sérgio pensativamente, abrindo a porta. André deu de ombros e Laila respondeu, saltitante "Tomara que sim!"

Cíntia passou a mão pela testa. Não estava se sentindo muito bem. Resolveu que iria direto à cozinha porcurar por um copo d'água gelada quando descessem as escadas.

À sua frente, Laila se sacudia e dava pulinhos no ritmo das batidas eletrônicas que ficavam mais e mais fortes a medida que seguiam pelo corredor mal-iluminado.

"Essa aí tá no cio," sussurrou André, rindo, para o amigo, apontando por cima do ombro.

sábado, 1 de março de 2008

y.I

interfunk Hugo e Marvin

Não se podia separar os dois gêmeos, e eles pouco faziam para facilitar essa diferenciação. Na verdade, boa parte do charme e sedução se devia aos fetiches que atingiam boa parte das pessoas. Outra grande porção do seu sucesso se dava à beleza incontestável e univitelina dos dois. Filhos de um sueco e uma brasileira neta de galeses, eram altos, as maçãs do rosto pronunciadas, o queixo perfeito e nariz reto. Os olhos é que eram diferentes. Os olhos de Hugo eram azul-céu-num-dia-claro. Os de Marvin eram quase cinza, e, se você chegasse perto o suficiente para ver, enxergaria tons de dourado e verde. Em algum tempo a maior parte dos colegas de escola se acostumaram com a aparência exótica dos dois. Mas, para qualquer um que os conhecesse desprevinido, ficaria atônito com a dose dupla exagerada.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

IV

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“Eu realmente precisava disso,” disse Roberto, baixando o copo fumegante na mesa coberta por guardanapos e uma variedade de balas.

Alice ignorou o comentário e olhou pela janela. Estava frio. O céu estava completamente encoberto por nuvens cinza, as calçadas enlameadas e os pedestres andavam rápido e olhando para baixo. O que para muitos poderia ser um tempo deprimente e entediante, para ela era a beleza que a cidade só mostrava durante uns poucos meses por ano. O ar era fresco e úmido, a grama verde e casacos embolorados eram tirados do fundo dos armários, alguns adornados por desnecessários cachecóis e gorros de lã, os raros cafés lotavam durante a tarde e à noite, faturando com o chocolate quente, chá e outras bebidas típicas e restritas a essa temperatura.

Despertou de seus devaneios e olhou para o amigo. Roberto tinha os cabelos castanhos decididamente mais compridos que o necessário, cílios quase loiros e dentes um tanto quanto peculiares. Tinha uma opinião constantemente diferente do resto das pessoas sobre as coisas, mas basicamente a mesma que Alice. Talvez fosse por isso que eram amigos há tanto tempo; preferia essa explicação à outra: tanto ele quanto ela não tinham mais nenhum amigo de verdade.

Depois de um longo gole de café, Roberto verificou rapidamente o relógio e disse, engasgando: “A gente tem que ir daqui a dez minutos, senão não dá mais tempo.”

Como resposta, Alice pegou o copo de suas mãos e deu um gole, fazendo careta: nunca gostara realmente do gosto amargo do café. Mas não custava nada tentar.

Roberto e Alice estavam fazendo aulas, respectivamente, de fotografia e teclado no mesmo prédio. Alice não possuía talento algum para a música, o que se provava verdadeiro a cada aula que se passava. Roberto, pelo contrário, revelou-se o melhor aluno da turma de seis pessoas, com uma de suas fotografias saindo vencedora de um concurso sobre cultura popular.

Os dez minutos se passaram rápido demais, e os dois foram em direção à saída. Antes que pudessem passar pela porta, no entanto, encontraram Hugo e Marvin, os gêmeos idênticos e tremendamente carismáticos com quem estudavam há dois anos.

“Oi,” sorriu um dos dois, não se sabe qual, indo na direção de Alice e Roberto. Covinhas surgiam nos cantos da sua boca a cada movimento.

Os gêmeos os abraçaram, amigavelmente, naturalmente. Era isso que Alice achava fascinante e perturbador sobre os dois: a naturalidade escancarada e deliciosa com que levavam a vida. Era irreal, até para os padrões atuais. Ela se incomodava com essa atração que eles proporcionavam a todos, inclusive a ela.

Marvin, que nome estranho, estava vestindo uma camisa pólo vermelho-escura um tanto quanto desarrumada demais, o cabelo castanho claro se enroscando no pescoço e cobrindo um pouco os seus olhos. Hugo usava um casaco marrom-escuro e jeans claros simples. O cabelo estava um pouco mais curto e mais liso que o do irmão, e ele usava grandes óculos-de-indie sem grau.

“Bom,” disse Roberto, ao fim de alguns minutos de conversa fiada. “A gente tem que ir. Até amanhã,” ele acrescentou com um sorriso, talvez sorridente demais.

Alice seguiu o amigo para fora do restaurante, e, quando estavam parados lado a lado na escada rolante, ela perguntou, abruptamente:

“Você gosta deles?”

“Como assim?” foi a resposta, mais como resposta de fato do que como pergunta.

Alice limitou-se a olhar para frente e descer com o máximo de graciosidade que conseguiu reunir para o chão fixo.

"Não." Roberto tirou do bolso da calça o iPod shuffle prata e colocou os fones de ouvido. Não precisava dessa conversa.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

III.I

Mardy Bum

Uma e meia. Boa parte dos convidados já estava bem servida de bebidas, o que não significava que haviam parado de beber. Diminuíram as luzes do salão para que os senhores mais alegrinhos e os jovens mais obedientes pudessem dançar. O resto, os senhores com vergonha na cara e os jovens sensatos, resignavam-se a comer aperitivos de camarão ou ir para a grande varanda do lado do salão oposto ao palco, de onde tocava uma banda ordinária, para fazer algo mais interessante. Essa era a deixa para os filhos irem fazer o que tinham que fazer, sem que os pais precisassem ver.

Cíntia levantou da cadeira um pouco mais bruscamente do que tinha planejado, porque tudo o que queria no momento era ir para casa e assistir novamente à primeira temporada de Gilmore Girls enquanto pintava as unhas dos pés de laranja. A não ser que alguma coisa mais interessante a convencesse a permanecer. Andou o mais rapidamente que os bons modos e os saltos dos sapatos brancos permitiram em direção à sacada. Estava um pouco frio, ela podia ver sua respiração formar pequenas nuvens à sua frente, mas ela não se importou. Apoiou os cotovelos no corrimão gelado, controlando a massa de mau-humor que tentava se formar no seu estômago. Tudo passaria mais rápido se ela não se aborrecesse mais que o essencial durante a noite.

Uma mão quente em seu ombro a despertou dos pensamentos desagradáveis que a invadiam. Vinícios estava parado ali, olhando-a nos olhos. Cíntia percebeu o que ele queria pelo modo que a tocou. Não encostou levemente em seu ombro, envolveu-o demoradamente. Ela devolveu o olhar com semelhante intensidade, considerando seus olhos castanhos, agora ligeiramente cobertos pela sombra, sua boca fina e o queixo decidido. Um meio sorriso se formou em seus lábios.

Ele se aproximou, lentamente. Mais lentamente que o necessário. Uma música ligeiramente conhecida começou, ao longe. Quando praticamente tudo que Cíntia podia ver era o rosto de Vinícios, a poucos centímetros do seu, ela notou alguém a alguns metros dos dois. Ela hesitou por um segundo e, automaticamente, deu mais uma olhada para ver quem era.

Quando finalmente percebeu o rosto contrariado do tal cara misterioso, Vinícios se afastou de repente. Olhou para o rapaz, lançou um olhar de profundo rancor a Cíntia e virou as costas, segundos depois de o outro ter feito o mesmo.

Perplexa, Cíntia ficou parada por mais alguns segundos contemplando o ponto onde os dois haviam desaparecido, procurando conter as lágrimas embaraçadas que surgiam. Encostou na parede de concreto pintado, desejando não ter deixado o pequeno estojo de maquiagem e os cigarros na bolsa.