“Eu realmente precisava disso,” disse Roberto, baixando o copo fumegante na mesa coberta por guardanapos e uma variedade de balas.
Alice ignorou o comentário e olhou pela janela. Estava frio. O céu estava completamente encoberto por nuvens cinza, as calçadas enlameadas e os pedestres andavam rápido e olhando para baixo. O que para muitos poderia ser um tempo deprimente e entediante, para ela era a beleza que a cidade só mostrava durante uns poucos meses por ano. O ar era fresco e úmido, a grama verde e casacos embolorados eram tirados do fundo dos armários, alguns adornados por desnecessários cachecóis e gorros de lã, os raros cafés lotavam durante a tarde e à noite, faturando com o chocolate quente, chá e outras bebidas típicas e restritas a essa temperatura.
Despertou de seus devaneios e olhou para o amigo. Roberto tinha os cabelos castanhos decididamente mais compridos que o necessário, cílios quase loiros e dentes um tanto quanto peculiares. Tinha uma opinião constantemente diferente do resto das pessoas sobre as coisas, mas basicamente a mesma que Alice. Talvez fosse por isso que eram amigos há tanto tempo; preferia essa explicação à outra: tanto ele quanto ela não tinham mais nenhum amigo de verdade.
Depois de um longo gole de café, Roberto verificou rapidamente o relógio e disse, engasgando: “A gente tem que ir daqui a dez minutos, senão não dá mais tempo.”
Como resposta, Alice pegou o copo de suas mãos e deu um gole, fazendo careta: nunca gostara realmente do gosto amargo do café. Mas não custava nada tentar.
Roberto e Alice estavam fazendo aulas, respectivamente, de fotografia e teclado no mesmo prédio. Alice não possuía talento algum para a música, o que se provava verdadeiro a cada aula que se passava. Roberto, pelo contrário, revelou-se o melhor aluno da turma de seis pessoas, com uma de suas fotografias saindo vencedora de um concurso sobre cultura popular.
Os dez minutos se passaram rápido demais, e os dois foram em direção à saída. Antes que pudessem passar pela porta, no entanto, encontraram Hugo e Marvin, os gêmeos idênticos e tremendamente carismáticos com quem estudavam há dois anos.
“Oi,” sorriu um dos dois, não se sabe qual, indo na direção de Alice e Roberto. Covinhas surgiam nos cantos da sua boca a cada movimento.
Os gêmeos os abraçaram, amigavelmente, naturalmente. Era isso que Alice achava fascinante e perturbador sobre os dois: a naturalidade escancarada e deliciosa com que levavam a vida. Era irreal, até para os padrões atuais. Ela se incomodava com essa atração que eles proporcionavam a todos, inclusive a ela.
Marvin, que nome estranho, estava vestindo uma camisa pólo vermelho-escura um tanto quanto desarrumada demais, o cabelo castanho claro se enroscando no pescoço e cobrindo um pouco os seus olhos. Hugo usava um casaco marrom-escuro e jeans claros simples. O cabelo estava um pouco mais curto e mais liso que o do irmão, e ele usava grandes óculos-de-indie sem grau.
“Bom,” disse Roberto, ao fim de alguns minutos de conversa fiada. “A gente tem que ir. Até amanhã,” ele acrescentou com um sorriso, talvez sorridente demais.
Alice seguiu o amigo para fora do restaurante, e, quando estavam parados lado a lado na escada rolante, ela perguntou, abruptamente:
“Você gosta deles?”
“Como assim?” foi a resposta, mais como resposta de fato do que como pergunta.
Alice limitou-se a olhar para frente e descer com o máximo de graciosidade que conseguiu reunir para o chão fixo.
"Não." Roberto tirou do bolso da calça o iPod shuffle prata e colocou os fones de ouvido. Não precisava dessa conversa.

Um comentário:
você escreve bemn (:
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