Musiquinha insuportável do despertador.
Hugo abriu os olhos assustado. Estava com o rosto enterrado no travesseiro, um braço pendia para fora da cama e o cobertor tinha caído no chão. Soltou um grunhido enquanto se virava de barriga para cima. Ai, que porra, quinta-feira.
Tateou em busca do botão que acabava com toda aquela apitação toda e bufou. Calma, só mais dois dias. Sentou bruscamente, sentindo a cabeça girar. Talvez estivesse doente, mas era só uma possibilidade. Cambaleou em direção à porta, sentindo que um dos pés tinha perdido a meia durante a noite. Argh.
A porta do banheiro estava fechada e trancada. Essa era a merda de ter um irmão gêmeo. Os seus pais acham que vocês podem dividir tudo. Inclusive o banheiro. Ele voltou para o quarto e sentou na poltrona verde-limão, totalmente consciente de que deveria estar enfiando os livros na mochila ou procurando os tênis, mas não estava em condições de fazer nada a não ser voltar a dormir.
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"Tá frio hoje" disse Marvin ao irmão, colocando as mãos nos bolsos do casaco. Ele não agüentava mais esse frio úmido insuportável, mas gostava de poder usar casaco e cachecol. E Brasília ficava muito from uk quando estava nublado... e quando não tinham muitos brasilienses por perto para estragar a paisagem.
"Tanto faz", respondeu Hugo, totalmente mal-humorado. Eram seis e meia da manhã, eles esperavam a droga do transporte cheio de gente feia e fedorenta embaixo do bloco. Um vento gelado e molhado soprava intermitentemente, ele não conseguia deixar mais de dez segundos em cada música e Marvin parecia totalmente de bem com a vida. Que porre.
Já estava antecipando o tédio intenso a que seria submetido nas próximas cinco horas, aulas, aulas, AULAS. Que saco, os professores falando, ele tentando prestar atenção (sim, ele tentava), fazer dever, copiar matéria, concentra. Só mais dois dias.
A van barulhenta parou a alguns metros dos dois, uns três passageiros meio grogues lá dentro olharam para os dois gêmeos. Hugo sentiu um desconforto momentâneo e puxou bruscamente o trinco da porta. Sentou à janela, colocou a mochila no chão e as mãos geladas embaixo das coxas. Ele sabia perfeitamente que parecia muito um nerd-sem-amigos no momento, mas não se importou. Continuou a escutar Gang of Four como se não houvesse amanhã, o resto do mundo que se fodesse.
Ui, que revoltado.
Marvin sentou ao seu lado, colocou a grande bolsa-sacola azul-marinho entre os joelhos magros e inspirou profundamente. Será que tem alguma festa esse sábado, ele pensou. Tinha um dever de física para entregar. Tinha que comprar um pacote de Halls antes do sinal tocar. Ele repassou mentalmente a lista de coisas importantes a fazer. Ah, e ainda tinha que procurar o all star azul marinho, que parecia perdido há muito tempo.
"Tem alguma coisa esse sábado?", perguntou Marvin ao irmão, que não respondeu. Não sabia se ele estava só utilizando aquela velha técnica "não te escuto, não está vendo, tenho fones de ouvido" ou se realmente não tinha escutado. Cutucou-o levemente com o cotovelo e repetiu a pergunta.
Hugo tirou um dos fones e pensou por um instante. "Não sei, acho que aquela menina do cabelo feio chamou a gente pra ir na casa dela", ele respondeu, distraído, e recolocou o fone.
Enquanto isso, duas meninas pequenas e de cabelos sebosos cochichavam furiosamente no banco de trás, entre risadinhas e chiadinhos, se achando as pessoas mais bacanas do mundo enquanto escutavam a conversa blasé e totalmente interessante dos dois.

2 comentários:
poxa... gostei...
@hot
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