segunda-feira, 28 de abril de 2008

X.I

image Gloria, we lied.

"Quem é ele?", perguntou André, indicando um garoto alto, magro de cabelos cacheados que cutucava desnecessariamente a carne na churrasqueira, ao lado de Cíntia, que esperava pacientemente uma fatia não-crua da picanha pingando sangue.

Fábio seguiu o olhar do amigo, pensou por um momento e deu de ombros.

"Acho que é o primo da Laila", respondeu.

"Oi", disse um garoto de covinhas e bochechinhas, os cabelos cacheados, a Cíntia.

"Tudo bom?", ela respondeu. Cíntia estava num humor excepcionalmente bom, com seu short azul-bebê e a camiseta branca transparente por cima do biquine marrom, o cabelo solto e óculos de sol. Esses momentos-saúde faziam bem de vez em quando.

"Gosta dessa música?", ele perguntou, referindo-se à até-então-não-notada música do Maroon 5, alguma das novas.

Cíntia deu de ombros, concordando superficialmente. Não tinha escutado direito, nem se importava. Estava curtindo o momento, e achando o máximo.

Mas ele não desistiria tão fácil. Fernando, aliás. O nome dele.

Cíntia encostou a cabeça no ombro de Fernando, sentindo o calor sob a camiseta dele. Estavam os dois na beira do lago, assistindo ao pôr-do-sol. Não que desse para ver alguma coisa, mas o céu mudando de azul para amarelo, depois laranja, vermelho, até roxo e verde, era a coisa mais intensa que ela já tinha sentido. Não só por causa do céu.

Fernando passou uma das mãos pelos ombros dela, que tremia de frio, por causa do cabelo ainda molhado da piscina e da camiseta sem mangas. Cíntia se aconchegou contra seu corpo, passando os dedos pelo jeans claro e áspero da sua calça jeans. O que ela sentia era grande, e não me venha pensar besteiras. Subia pela garganta, inflava o peito e formigava os pés. Ela sentia nas juntas e em todos os músculos. Ou então era só o período do mês.

"E aí, gostou?", perguntou Laila, depois de todos os outros já terem indo embora. Ela e Cíntia estavam na banheira do quarto dos pais de Laila, que tinham viajado. A banheira tinha nove metros quadrados, banquinhos e hidromassagem. Era quase uma piscina.

"Do quê?", Cíntia perguntou, lendo distraidamente um vidro de shampoo. Ela estava com muito sono e se sentindo meio irritantemente eufórica, não o melhor estado de espírito para conversas.

"Do meu primo!", disse Laila, rindo. "Eu vi vocês lá em baixo, no maior love."

"Ah," ela respondeu, olhando para baixo. "A gente nem ficou."

quinta-feira, 24 de abril de 2008

XI

image Chovia tanto que os bueiros entupidos não davam conta de toda a água que se acumulava nas tesourinhas, agora submersas, causando um engarrafamento ainda maior do que o esperado para as seis da tarde.

Cíntia abriu a bolsa mecanicamente e verificou o visor do celular. Nenhuma chamada perdida. Ao seu lado, sua mãe resmungava mal-humorada, reclamando do tempo, do trânsito e de ter saído de casa a essa hora, sacudindo as pulseiras douradas com impaciência.

Cíntia afundou no banco do carro, cruzando os braços. Era sexta-feira, ela estava voltando do colégio depois de ter estudado durante horas. O cabelo molhado estava preso num rabo-de-cavalo no alto da cabeça e ela estava vestindo a calça jeans de que menos gostava, larga e fora de moda e não tinha nada para fazer durante todo o final de semana.

Jogou a bolsa, os livros e os cadernos em cima da cama, tirou os tênis, a camiseta úmida do uniforme e o sutiã enquanto atravessava o quarto, largando tudo no chão, pelo caminho. Entrou no banheiro e tirou a calça jeans horrorosa, jogando-a de qualquer jeito em cima da tampa fechada do vaso e abriu a água quente da banheira.

Vestindo só a calcinha branca e pequena de algodão, vasculhou o armário do lado do espelho atrás dos sais de banho e sabonetes importados, que ela sempre tinha pena de gastar. Não que não fosse ganhar outros no aniversário seguinte. Deu um suspiro e despejou todo o conteúdo de um vidrinho amarrado com uma fita cor-de-rosa, o rótulo de papel reciclado bege, depois o resto do tubo de um sabonete líqüido que tinha cheiro de... sabonete. E de azul-turquesa.

Enquanto olhava a banheira encher, soltou o cabelo, que estava úmido e amassado, pegou o roupão lilás e pendurou-o num gancho ali do lado. Depois, tirou a calcinha  e entrou na banheira, sentindo a água perfumada que queimava a pele, mas aliviava a dor nas costas e nas pernas. Desligou a torneira, tampou o ralo e fechou os olhos.

terça-feira, 22 de abril de 2008

brigada, ta.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

X

"Acordei com a alma fedendo a cigarro, e o resto a remorso. Ou melhor, receio do remorso."

A cortina entreaberta deixava passar alguns raios indesejados do sol da tarde para dentro do quarto mal-cheiroso. O ar estava abafado, mas Sérgio não sentia calor sob o edredon, nem deveria sentir muito mais coisa nas próximas horas. Isso se seu celular não estivesse tocando intermitentemente nas últimas duas horas, e se dessa vez ele não tivesse escutado.

Ele abriu os olhos com dificuldade, e esticou um braço cegamente em direção à mesa de cabeceira, para descobrir que o maldito celular estava provavelmente no bolso da calça da noite anterior, que se encontrava a uns dois metros de distância do alcance de suas mãos, bem mais do que ele poderia suportar. Com o maior esforço de sua vida, ele levantou e andou até a cadeira abarrotada de roupas sujas, cadernos de provas e algumas meias. Procurou pelo aparelhinho que continuava a vibrar loucamente ao som de Hello Moto (ele não tinha mudado o toque?), e apertou o botãozinho verde.

O primeiro alô saiu rouco e inaudível. Limpou a garganta com força e tentou de novo.

"Alô?", disse, passando os dedos pela barriga descoberta, parecendo muito um quarentão de ressaca. "Quem é?"

"Cíntia! Você não tem o meu número gravado?"

Claro que ele tinha, mas não tinha pensado em olhar na telinha antes de antender.

"Ah, oi. Tudo bom?" Ele continuava fedorento e meio grogue, e agora que tinha levantado e seu cérebro começava, lentamente, a funcionar, ele percebeu que estava um calor dos infernos ali no quarto.

"A gente tá te ligando há umas cinco horas. Tá todo mundo na casa da Laila, por quê você não veio?", disse Cíntia, e agora ele podia ouvir a batida meio eletrônica ao fundo, gritos e barulho de gente pulando na piscina.

"Ahm... O Vinícios também tá aí?", ele perguntou. Os dois beberam, fumaram e fizeram sei lá mais o quê e tudo que tinham direito na noite anterior. Sérgio não lembrava nem como chegara em casa.

"Tá, ele chegou há uns vinte minutos", respondeu a garota.

"Hm, que horas são?" perguntou ele, olhando em volta e procurando um relógio. Não encontrou.

"Quatro e quarenta e dois."

Porra, seus pais não deviam estar em casa, senão ele nunca poderia ter acordado tão tarde sem receber um esporro e ameaças pela porta.

"Ok... eu tou indo. Beijo, tchau", ele disse, rumando para o banheiro. Tudo que precisava era de um bom banho. E de outro porre.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

off

Bad timing

"Eu não quero que você vá embora", pediu ele, e lançou seu corpo contra o dela, envolvendo-a com seus braços fortes e pressionando os lábios quentes e molhados contra os dela. Por alguns segundos, a garota ficou tensa e surpresa sob as mãos que seguravam firmemente sua cintura, com o desespero nos seus beijos. Ela relaxou e ergueu lentamente uma das mãos, tocando o pescoço dele com as pontas dos dedos, depois passando-os de leve pela bochecha áspera da barba por fazer, e finalmente o fez parar e afastou-o.

"Isso vai deixar tudo mais difícil", ela disse, reunindo todo o autocontrole que conseguiu encontrar e encarando-o nos olhos. Aquilo tinha sido desejado, esperado e ansiado por tanto tempo... Mas agora era uma péssima hora para acontecer.

Ele levantou os olhos tão castanhos e normalmente tão alegres, agora brilhante das lágrimas que não deveriam estar ali, fazendo parte daquela súplica silenciosa.

A garota segurou as mãos dele entre as suas, agora geladas, e ele entrelaçou os dedos nos dela, desviando o olhar. Ela deu um passo na direção dele, abraçou-o e murmurou um consolo mal-estruturado e ineficiente em seu ouvido.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

off

Alterego

Sinto os caminhos batidos e as garrafas quebradas. Sinto o sussurro da Lua e do povo na rua. Sinto a clavívula tão sublinhada das unhas pintadas. Sinto teu cheiro de coisa errada, sinto a vida que me tropeça as palavras. Sinto os que catalisam. Sinto a douçura que me leva às favas. Quis não dormir e fiz do Sentir um desperdício. Vi e vejo o traço das traças na roupa lavada. Quebrei o sentido desse ruído. Tentei verso e fiz o inverso. Achei e desencaixei os encantos do amigo manco. Larguei o baralho e liguei a televisão, assistir SBT.

Alterego nem tanto.

sábado, 12 de abril de 2008

IX

image "Meu nome é Micaela, mas pode me chamar de Mika. Eu odeio meu nome", disse, mal-humorada, a garota de short verde limão, depois de dar um longo trago no Camel entre os dedos sujos de tinta preta e marrom.

As outras pessoas espalhadas pelo gramado ignoraram o comentário, e continuaram a fazer o que estavam fazendo, trocando as músicas no iPod, comendo frutas cristaizadas, acendendo cigarros ou apertando furiosamente os botões de celulares, como se deitar-se na grama, no Parque da Cidade, às nove horas da manhã de uma terça-feira nublada, vestindo shorts de seda, camisetas finas e transparentes e ankle boots azul-turquesa fosse a coisa mais normal do mundo.

A uns três metros dali, um garoto, que não devia ter mais de 16 anos, clicava ritmadamente numa câmera grande e de aparência profissional, os cotovelos ossudos formando ângulos estranhos. A poucos metros dele, um segundo cara caminhava lentamente entre as pessoas, com uma filmadora grande e cara apontada aparentemente a esmo para os rostos dos integrantes daquele grupo singular.

Alguns poucos pedestres, corredores, ciclistas, passavam ali por perto, estranhavam a cena, mas não se detinham muito tempo.

Passados quarenta minutos, um pouco mais ou pouco menos, surgriu, deus sabe de onde, um homem vesindo calças xadrez cinza e roxo, o cabelo loiro visivelmente artificial, com uma xícara de café fumegante em uma das mãos e um picolé ainda fechado na outra. Ele passou o picolé ao garoto fotógrafo e disse, a meia voz:

"Acho que já está bom, Roberto. Tchau."

As pessoas antes estiradas no chão se levantaram e passavam as mãos na parte de trás das pernas, arumavam o cabelo ou coçavam o pé. O homem-da-filmadora amarrava o cadarço do tênis, agachado ao lado de uma pilha de copos descartáveis e caixas transparentes de frutas cristalizadas.

Roberto encarou o sorteve em suas mãos, e pendurou a câmera no pescoço. Depois virou para o homem ao seu lado, que agora segurava, além do café, um iPhone que pressionava contra a orelha, escutando pacientemente o zumbido que saía do pequeno auto-falante. Roberto esperou ele desligar.

"Você tem como me dar uma carona até a W3?", perguntou.

O homem o fitou.

"Você não devia estar na escola agora?", ele disse, levantando uma das sobrancelhas.

"É... devia", respondeu o garoto, por fim.

"Sua mãe sabe disso?", continuou ele, ainda desconfiado.

Houve uma pausa enquanto Roberto tirava o cartão de memória da câmera.

"Espero que não", respondeu, e entregou o cartão ao homem. Depois abriu o pacote rosa-choque do picolé e deu uma lambida. O gosto era horrível.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

VIII

image "Come, quero ver" disse Lígia, rindo, para Hugo. Ele acabara de misturar uma variedade de restos de comida que eles encontraram na geladeira da cozinha do apartamento da garota e colocara tudo em cima de uma torradinha integral.

Para espanto e deleite de Lígia e Marvin, Hugo abriu a boca o máximo que pôde e engoliu a massa marrom e pastosa, com cara de nojo. Os outros dois deram gritos e gargalhadas ao mesmo tempo.

Marvin jogou o resto da torrada na pia, encheu apressado um copo de água e tomou num gole só. Parou e encarou os outros dois.

"Eca", declarou.

Lígia sentou na pia de mármore bege, fazendo a camiseta cinza e grande que ela vestia levantar e revelar um short jeans verde marca-texto. Pegou o copo de coca-cola com gelo que estava ali e deu um gole, olhando para Hugo. Ele retribuiu o olhar divertido, depois abriu a geladeira e tirou uma garrafa de cerveja já aberta da porta.

"Seus pais realmente não se importam das cervejas sumirem da geladeira, né?" ele perguntou, dando um gole. Ele sabia que não, mas não custava nada reforçar.

Lígia não respondeu. De repente, deu um pulo e exclamou: "EU AMO ESSA MÚSICA!", e saiu dançando e sacudindo os braços pelo corredor em direção ao quarto, de onde vinha o som de Teenagers, do My Chemical Romance.

Marvin e Hugo, distraído, que ainda carregava a cerveja, a seguiram devagar. Marvin parou à porta e disse, provocando: "Que emo, Lí."

Ela deu de ombros, rindo. A música acabou, e, aos poucos, o sorriso foi desaparecendo do seu rosto. Ela se jogou na cama, entre as várias almofadas amarelas, dando um longo suspiro. Os gêmeos se olharam rapidamente e deitaram, ao mesmo tempo, um de cada lado da garota.

"Eu estou meio triste", ela disse, olhando para a almofada branca com cara de elefante em suas mãos e sacudindo os pés com as meias verdes mais velhas.

"Por quê?", perguntou Hugo, virando para ela e a olhando profundamente com seus olhos cor de chumbo, a cabeça apoiada em uma das mãos.

"Sei lá", ela respondeu, fazendo uma cara meio contrariada e colocando o elefante de lado.

"Não fica triste", pediu Marvin, fechando os olhos e a envolvendo num abraço que foi completado por Hugo, do outro lado.

"É, não fica triste", reforçou o irmão, dando um beijinho delicado na maçã do rosto da garota.

Ela olhou para o teto, com um sorriso imperceptível no canto dos lábios, e sussurrou: "Não tou mais triste."

A câmera segue para o teto, acompanhando os olhos de Lígia que se reviram, e a cena escurece, deixando o desfecho em aberto.