sexta-feira, 18 de abril de 2008

X

"Acordei com a alma fedendo a cigarro, e o resto a remorso. Ou melhor, receio do remorso."

A cortina entreaberta deixava passar alguns raios indesejados do sol da tarde para dentro do quarto mal-cheiroso. O ar estava abafado, mas Sérgio não sentia calor sob o edredon, nem deveria sentir muito mais coisa nas próximas horas. Isso se seu celular não estivesse tocando intermitentemente nas últimas duas horas, e se dessa vez ele não tivesse escutado.

Ele abriu os olhos com dificuldade, e esticou um braço cegamente em direção à mesa de cabeceira, para descobrir que o maldito celular estava provavelmente no bolso da calça da noite anterior, que se encontrava a uns dois metros de distância do alcance de suas mãos, bem mais do que ele poderia suportar. Com o maior esforço de sua vida, ele levantou e andou até a cadeira abarrotada de roupas sujas, cadernos de provas e algumas meias. Procurou pelo aparelhinho que continuava a vibrar loucamente ao som de Hello Moto (ele não tinha mudado o toque?), e apertou o botãozinho verde.

O primeiro alô saiu rouco e inaudível. Limpou a garganta com força e tentou de novo.

"Alô?", disse, passando os dedos pela barriga descoberta, parecendo muito um quarentão de ressaca. "Quem é?"

"Cíntia! Você não tem o meu número gravado?"

Claro que ele tinha, mas não tinha pensado em olhar na telinha antes de antender.

"Ah, oi. Tudo bom?" Ele continuava fedorento e meio grogue, e agora que tinha levantado e seu cérebro começava, lentamente, a funcionar, ele percebeu que estava um calor dos infernos ali no quarto.

"A gente tá te ligando há umas cinco horas. Tá todo mundo na casa da Laila, por quê você não veio?", disse Cíntia, e agora ele podia ouvir a batida meio eletrônica ao fundo, gritos e barulho de gente pulando na piscina.

"Ahm... O Vinícios também tá aí?", ele perguntou. Os dois beberam, fumaram e fizeram sei lá mais o quê e tudo que tinham direito na noite anterior. Sérgio não lembrava nem como chegara em casa.

"Tá, ele chegou há uns vinte minutos", respondeu a garota.

"Hm, que horas são?" perguntou ele, olhando em volta e procurando um relógio. Não encontrou.

"Quatro e quarenta e dois."

Porra, seus pais não deviam estar em casa, senão ele nunca poderia ter acordado tão tarde sem receber um esporro e ameaças pela porta.

"Ok... eu tou indo. Beijo, tchau", ele disse, rumando para o banheiro. Tudo que precisava era de um bom banho. E de outro porre.

3 comentários:

maria louca disse...

"Acordei com a alma fedendo a cigarro"
*-*

Anônimo disse...

amay

Anônimo disse...

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=50436417