quinta-feira, 24 de abril de 2008

XI

image Chovia tanto que os bueiros entupidos não davam conta de toda a água que se acumulava nas tesourinhas, agora submersas, causando um engarrafamento ainda maior do que o esperado para as seis da tarde.

Cíntia abriu a bolsa mecanicamente e verificou o visor do celular. Nenhuma chamada perdida. Ao seu lado, sua mãe resmungava mal-humorada, reclamando do tempo, do trânsito e de ter saído de casa a essa hora, sacudindo as pulseiras douradas com impaciência.

Cíntia afundou no banco do carro, cruzando os braços. Era sexta-feira, ela estava voltando do colégio depois de ter estudado durante horas. O cabelo molhado estava preso num rabo-de-cavalo no alto da cabeça e ela estava vestindo a calça jeans de que menos gostava, larga e fora de moda e não tinha nada para fazer durante todo o final de semana.

Jogou a bolsa, os livros e os cadernos em cima da cama, tirou os tênis, a camiseta úmida do uniforme e o sutiã enquanto atravessava o quarto, largando tudo no chão, pelo caminho. Entrou no banheiro e tirou a calça jeans horrorosa, jogando-a de qualquer jeito em cima da tampa fechada do vaso e abriu a água quente da banheira.

Vestindo só a calcinha branca e pequena de algodão, vasculhou o armário do lado do espelho atrás dos sais de banho e sabonetes importados, que ela sempre tinha pena de gastar. Não que não fosse ganhar outros no aniversário seguinte. Deu um suspiro e despejou todo o conteúdo de um vidrinho amarrado com uma fita cor-de-rosa, o rótulo de papel reciclado bege, depois o resto do tubo de um sabonete líqüido que tinha cheiro de... sabonete. E de azul-turquesa.

Enquanto olhava a banheira encher, soltou o cabelo, que estava úmido e amassado, pegou o roupão lilás e pendurou-o num gancho ali do lado. Depois, tirou a calcinha  e entrou na banheira, sentindo a água perfumada que queimava a pele, mas aliviava a dor nas costas e nas pernas. Desligou a torneira, tampou o ralo e fechou os olhos.

2 comentários:

Anônimo disse...

pessoas normais costumam fechar o ralo antes de ligar a torneira, se não a banheira não enche.
fikdik

Melissa Campello disse...

ela queria acabar com o meio-ambiente