quinta-feira, 17 de julho de 2008

Dilema

Tá acabando, só tem mais dois. Vou acender esse. Não, não vou te dar o último. Vou, vou comprar outro maço, mas eu quero saber que tem um aí ainda. Quando eu comprar outro eu te dou esse cigarro. Mas... qual eu compro? Nem sei se eu vou comprar outro. Eu não quero ficar, sei lá, dependente. Eu também não quero dizer "vou parar", porque eu não quero admitir que eu comecei. Mais uma coisa pra gastar dinheiro, como se já não bastasse chiclete e ônibus... Ok, a gente para em alguma banca e compra outro maço. Mas qual? Eu não quero comprar outro Marlboro. Eu sou totalmente contra a filosofia do Marloboro, é tipo, comum. Carlton, eca. Todo feio e com gosto de bunda. Derby é coisa de pedreiro viciado que não tem dinheiro pra gastar mas é viciado em nicotina. Hollywood, não. Eu gosto de Black, mas Black é tipo chocolate, é para quando você tem com quem dividir ou uma ocasião especial. Porque é muito ridículo fumar Black, é todo preto e metido a besta, com aqueles sabores gays, é mais caro que os outros, não se fuma Black sem que alguém olhe e pense "hm, puta ou bicha designer". É coisa pra quem fica "oh, olhe só como eu sou cool, além de conseguir acender o isqueiro, eu fumo um cigarro preto, com a caixinha bonita e que é mais caro que os outros normais, haha", coisa pra gente que quer chamar atenção. LA é igual ao Black, a mesma caixinha, o mesmo preço, os mesmos sabores, só que é pobre! É todo mal feito e nojento, o fumo fica todo colado cola que eles usam pra prender o papel, parece sujeira. Camel é bom, mas os últimos dois maços que eu comprei eram Camel, e ele é todo forte e tudo mais, de filtro amarelo, fumaça enorme e panz. Mas favorece trocadilhos adoidado, fumando "camel", haha. Acho que não vou comprar nenhum não. Vou pegar esse dinheiro e guardar, pra comprar meu óculos escuros. Ficar gastando dinheiro com essas coisas, não é nem sorvete nem nada, não faz bem, não te deixa mais feliz, só te deixa fedorenta e com aquele suspense quando chega em casa, "será que vão perceber?", com medo de encontrar algum conhecido na rua, nenhum benefício. Além de foder com o pulmão, ter veneno de rato e 2700 outras substâncias tóxicas, fora a nicotina. Acho que vou comprar outro Marlboro light mesmo. Pelo menos é light, haha.

"Pois não?"

Oi, moça, tem Black?

"Tem."

Me dá um de menta?

Apesar do sol e da lua e das estrelas e do vento o mundo era silencioso vazio e pequeno com pouco espaço pra viver e demais pra pensar no que fazer e no que não fazer e no que não fez e no que não está fazendo porque não consegue achar espaço pra parar de pensar no que não deve ou no que deve mas não gosta o que é quase tudo nesse mundo cheio de espaço e com pouco ar pra parar de respirar.

sábado, 12 de julho de 2008

XIV

image De cabeça baixa, chutando as pedras (por assim dizer) do caminho, cigarro pendendo entre os dedos, jaqueta de couro e um tênis qualquer, o cabelo castanho embaraçando com as folhinhas que caíam das árvores das entrequadras desertas, à uma e meia da manhã daquela quarta-feira.

O apartamento estava vazio quando ele catou peças de roupa de cima do teclado do computador, confirmou a presença do maço de cigarros baratos no bolso da calça e desceu os três andares pela escada.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

XIII

image O Sol forte, o vento úmido e as risadas distantes davam ao mundo um tom sépia de cores brilhantes, cheiro de água salgada, óculos escuros, água de coco, areia entre os dedos. Era possível escutar algumas notas de uma bossa conhecida, ou talvez fosse só imaginação. De qualquer modo, não fazia diferença, a música estaria lá de qualquer jeito. Porque o importante é o jeito que o mundo chega até nós, passando por todos os sentidos que o distorcem, não a realidade. Essa é distante e abstrata, inatingível e desinteressante.

Com um gesto preguiçoso, Laila levou a mão aos cabelos cor-de-praia deu um nó, desleixado, enfiando um grampo que tinha preso à roupa. No movimento, seus pés descalços arrastaram-se na pedra portuguesa, causando uma sensação agradável e iluminando uma única lembrança cor-de-laranja, de sua tia, do verão e dos ombros salgados e morenos. Dos olhos quase fechados, sonolentos, como agora. Sorriu.

Tudo parecia tão longe, tão confuso e tão cheio de contraste, toda aquela vida agitada era tão afastada dela no momento. Mesmo assim, sabia que, se um dos dois momentos era um sonho, era esse aqui. A vida seria terrível se fosse um sonho sempre, do qual nunca acordamos. Era como viver involuntariamente sob o efeito de alguma droga, sem direito a rehab.