segunda-feira, 7 de julho de 2008

XIII

image O Sol forte, o vento úmido e as risadas distantes davam ao mundo um tom sépia de cores brilhantes, cheiro de água salgada, óculos escuros, água de coco, areia entre os dedos. Era possível escutar algumas notas de uma bossa conhecida, ou talvez fosse só imaginação. De qualquer modo, não fazia diferença, a música estaria lá de qualquer jeito. Porque o importante é o jeito que o mundo chega até nós, passando por todos os sentidos que o distorcem, não a realidade. Essa é distante e abstrata, inatingível e desinteressante.

Com um gesto preguiçoso, Laila levou a mão aos cabelos cor-de-praia deu um nó, desleixado, enfiando um grampo que tinha preso à roupa. No movimento, seus pés descalços arrastaram-se na pedra portuguesa, causando uma sensação agradável e iluminando uma única lembrança cor-de-laranja, de sua tia, do verão e dos ombros salgados e morenos. Dos olhos quase fechados, sonolentos, como agora. Sorriu.

Tudo parecia tão longe, tão confuso e tão cheio de contraste, toda aquela vida agitada era tão afastada dela no momento. Mesmo assim, sabia que, se um dos dois momentos era um sonho, era esse aqui. A vida seria terrível se fosse um sonho sempre, do qual nunca acordamos. Era como viver involuntariamente sob o efeito de alguma droga, sem direito a rehab.

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