domingo, 31 de agosto de 2008

XVII

image Daquelas festas de quinze anos, naqueles salões de clubes no Lago Sul, que mobilizam trezentos adolescentes e quinhentos empregados, funcionários e diversos trabalhadores envolvidos com o buffet, a ignorável decoração das mesas, os vestidos, a música de criatividade anulada e motoristas de táxi às quatro da manhã.

Cíntia e Laila passaram a tarde assistindo E! e fumando LAs, com umas três latinhas de cerveja. Sim, porque o pai de Laila viajara, e elas tinham o apartamento só para as duas. E quem mais quisessem chamar.

Às dez horas, o início da festa segundo o convite, procuraram os sapatos, tomaram banho, puseram os vestidos, passaram rímel e chamaram um táxi.

Chegando lá, fotos, conversas amenas, olhares sigificativos, penetras, bolinhas de queijo, água, valsa, vestidos horríves, eletrônica, axé, funk, eletrônica...

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Podia ser o álcool agindo. Às três e vinte, depois de seis taças de champanhe e inúmeros copos de drinks coloridos de nomes criativos, Cíntia se destacava na pista, sacudindo os ombros, os pés (um dos poucos ainda calçados com os saltos altos, e sem sinal de desconforto) e os braços nas melhores combinações de movimento, rodeada por pessoas que não conhecia. E por uma garota um pouco mais alta, que parecia brilhar junto e em harmonia com ela. Balançava os cabelos claros e os braços finos, o vestido azul-água e marrom dançando também. Os rostos e os corpos das duas se moviam juntos, os olhos se encontravam e elas sabiam ser o centro das atenções. Cíntia percebeu o que estava acontecendo, e, antes que pudesse tirar qualquer conclusão, a garota se adiantou e fez o que estava ameaçando a algum tempo.

Cíntia já beijara garotas. Muitas, na verdade, na frente de outras pessoas, de pessoas que não deviam estar lá inclusive. Mas nunca sem um impulso social, sem levar tudo na esportiva alcoólica. Elas tropeçaram para fora da pista, ignorando poucos olhares que as acompanharam, e seguiram automaticamente para a cabine de deficiente do banheiro feminino, onde Cíntia teve o maior e melhor orgasmo de toda a sua vida.

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...axé, forró, e tomaram outro táxi, acompanhadas de André e um amigo loiro e alto dele, com uma gravata azul saindo do bolso da calça e o paletó escuro pendurado no ombro, de volta para o apartamento do pai de Laila.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

XIV.I

image Parou num boteco ali por perto, entre uma floricultura escura e a calçada cheia de calombos e placas de cimento quebradas. Acenou com a cabeça pedindo uma cerveja, que foi batida com ênfase contra o balcão gorduroso à sua frente. Pagou e saiu.

Estava frio pra cacete. Meteu uma mão no bolso da jaqueta, a outra gelando em contato com a garrafa, e fez um pequeno esforço, como quem testa uma teoria desinteressante, para buscar um pensamento, uma lembrança, uma idéia. Pensar na vida. Não conseguia, constatou, nem queria, nem precisava.

Por dois centímetros não pisou numa merda de cachorro na grama, e por dois segundos não foi atropelado por um fiat branco, que ia a 135 km/h, enquanto atravessava o eixão em lento ziguezagueado.

sábado, 9 de agosto de 2008

XV

Cíntia recostou na cadeira e percebeu que o que ela sentira nem era tão grande assim.