sexta-feira, 28 de novembro de 2008

XX

A cozinha era apertada, verdade, mas era o suficiente para manter entretidos por horas três amigos. Ou, excepcionalmente naquela noite, dois.

"Parei de fumar", declarou Lígia.
Marvin, surpreso, parou com a mão apoiada na porta da geladeira e olhou para a garota.
"Sério? Faz quanto tempo?"
Ela pensou um pouco.
"Uma semana e seis dias", respondeu, com orgulho.
"Mas por quê?", ele perguntou, estranhando. Era a marca registrada da amiga. Bom, uma delas.
"Sabe, é uma emissão desnecessária de CO2 no ambiente."
Como se ela se importasse.
"Ok," disse ele, abrindo a geladeira e pegando um litro de leite. "E o seu organismo?"
Lígia deu de ombros.
"Ele pode lidar com isso."

sábado, 22 de novembro de 2008

IXX

"Então, eu estava pensando. Quando você fica viciado fisicamente em uma droga, é que suas células passaram a precisar daquilo pra funcionar, certo? É a mesma coisa com comida. Tipo, proteína, carboidrato"
"Claro que não", interrompeu, meio pensando por que estava sequer considerando discutir uma afirmação absurda dessas. "Mesmo que você não dê comida para uma pessoa desde que ela nasceu, ela vai morrer se não comer."
A outra fez uma cara de impaciência.
"Não, é claro. Só que você não precisa realmente disso tudo. Tipo, não de tudo que você come."
"Sei."
"Não, presta atenção. Você só precisa de um mínimo necessário desse tanto de carboidrato que você ingere. Quase nada. O resto é vício. Se você for diminuindo a quantidade, você vai viver só do mínimo."
"Pára de falar besteira."
"Não, pensa comigo: uma daquelas crianças cabeçudas africanas consegue ficar muito mais tempo sem comer do que uma criança barriguda americana. E por quê? Porque a americana tá viciada em glicose/carboidrato/etc."
"É, com certeza."
"Também tem a compulsão. Tipo, a vontade de comer, essas coisas." Ela parou, ao ver a cara da amiga. "Faz sentido, tá!"
"É, Ana, você vai ganhar o Nobel de medicina por essa teoria."

domingo, 9 de novembro de 2008

XVIII


Aggressiveley we all defend the role we play
"Quer um café?", veio a pergunta.
Pensei um pouco. Meu estômago borbulhou.
"Não, obrigado", respondi. "Tem um salgadinho, batata, alguma coisa assim?"
"Acho que não," ela respondeu. "A gente pode descer pra comprar."
Olhei para mim. Descalço, os joelhos ossudos, cabeludos e tortos depois de um short cinza, daqueles de pijama, uma regata branca meio encardida. O estômago reclamou de novo. Ok, vamos lá.
"Você vai lá?"
"Você vai comigo?", eu quis saber. Não fazia questão.
"Não, vou ficar aqui e botar esses pratos na máquina."
Ok.
Calcei um chinelo preto, enfiei duas notas de dez no bolso e fui daquele jeito mesmo na padaria. Perguntei se o pão tinha saído agora.
"Há uns dez minutos."
"Sei," disse baixinho. "Me vê cinco."
Peguei uma bandeijinha de queijo enquanto esperava.
"Só isso?"
Só. Com o pão e o queijo em uma mão, peguei uma garrafa de coca com a outra e fui até o caixa.
"Mais alguma coisa?"
"Hm... não, só isso", respondi. "Ah, e um Trident azul. Não, o azul claro. E um marlboro light."
"Maço ou box?"
E faz diferença, porra?
"Box."
O cara enfiou tudo em dois saquinhos plásticos e eu saí. Putz, não trouxe isqueiro.
Puxei umas moedinhas do troco que eu tinha jogado no saquinho da coca e voltei ao caixa.
"Me dá uma caixa de fósforo," eu disse, batendo as moedinhas no balcão. "Brigado."
Acendi o cigarro, e fui voltando pra casa. A grama estava meio úmida, o cimento quebrado da calçada meio lamacendo, sujando os lados meus pés.
Toquei a campainha. Esqueci de levar a chave.
Entrei, botei tudo em cima da mesa da sala, fui até o computador e apertei play no Windows Media Player já aberto. Amor, vem cá. Puxei-a pela cintura, e botei-a para dançar.
"Don't you wanna come with me?", cantarolei em seu ouvido. Ela estava horrível, com os olhos meio vermelhos e meio manchados de rímel, com uma camiseta branca enorme por cima de uma lingerie preta, o que ela usava sempre.
"Don't you wanna feel my bones" ela respondeu. "On your bones?"
Nós dois somos anormalmente magros, então essa era a nossa música-piadinha-iterna.
"Que horas são?", eu perguntei.
"Dez pro meio-dia."