domingo, 9 de novembro de 2008

XVIII


Aggressiveley we all defend the role we play
"Quer um café?", veio a pergunta.
Pensei um pouco. Meu estômago borbulhou.
"Não, obrigado", respondi. "Tem um salgadinho, batata, alguma coisa assim?"
"Acho que não," ela respondeu. "A gente pode descer pra comprar."
Olhei para mim. Descalço, os joelhos ossudos, cabeludos e tortos depois de um short cinza, daqueles de pijama, uma regata branca meio encardida. O estômago reclamou de novo. Ok, vamos lá.
"Você vai lá?"
"Você vai comigo?", eu quis saber. Não fazia questão.
"Não, vou ficar aqui e botar esses pratos na máquina."
Ok.
Calcei um chinelo preto, enfiei duas notas de dez no bolso e fui daquele jeito mesmo na padaria. Perguntei se o pão tinha saído agora.
"Há uns dez minutos."
"Sei," disse baixinho. "Me vê cinco."
Peguei uma bandeijinha de queijo enquanto esperava.
"Só isso?"
Só. Com o pão e o queijo em uma mão, peguei uma garrafa de coca com a outra e fui até o caixa.
"Mais alguma coisa?"
"Hm... não, só isso", respondi. "Ah, e um Trident azul. Não, o azul claro. E um marlboro light."
"Maço ou box?"
E faz diferença, porra?
"Box."
O cara enfiou tudo em dois saquinhos plásticos e eu saí. Putz, não trouxe isqueiro.
Puxei umas moedinhas do troco que eu tinha jogado no saquinho da coca e voltei ao caixa.
"Me dá uma caixa de fósforo," eu disse, batendo as moedinhas no balcão. "Brigado."
Acendi o cigarro, e fui voltando pra casa. A grama estava meio úmida, o cimento quebrado da calçada meio lamacendo, sujando os lados meus pés.
Toquei a campainha. Esqueci de levar a chave.
Entrei, botei tudo em cima da mesa da sala, fui até o computador e apertei play no Windows Media Player já aberto. Amor, vem cá. Puxei-a pela cintura, e botei-a para dançar.
"Don't you wanna come with me?", cantarolei em seu ouvido. Ela estava horrível, com os olhos meio vermelhos e meio manchados de rímel, com uma camiseta branca enorme por cima de uma lingerie preta, o que ela usava sempre.
"Don't you wanna feel my bones" ela respondeu. "On your bones?"
Nós dois somos anormalmente magros, então essa era a nossa música-piadinha-iterna.
"Que horas são?", eu perguntei.
"Dez pro meio-dia."

2 comentários:

fê. disse...

obrigado por postar :D fazia um tempão que você não escrevia nada aqui, pensei até que você tinha abandonado u_u

Ana Beatriz disse...

ei, você escreve muito bem, parabéns. também estou acompanhando seu conto. é viciante.