quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

XXXI.2

...
Ela voltou da cozinha com dois copos de coca. "Já pensou em algum nome?", perguntou.
"Rita.", ele disse, pegou um copo e abriu espaço para ela no sofá.
"Rita? Rita Cadillac?"
"Rita Lee, Santa Rita de Cássia."
"Maria Rita. Lovely Rita."
"Eca, não, eu não quero que a nossa filha seja uma homenagem pra Maria Rita."
"E se for menino?"
"Humberto."
"O nome do seu pai? Humberto? Pelo amor de deus."
Ela ficou em silêncio. Baixou os olhos.
Ele olhou-a, parou de sorrir.
"Você já falou com os seus pais?"
Ela balançou a cabeça.
"O que você acha que eles vão dizer?"
"Sei lá, porra."
"Shh, 'cê não pode mais falar palavrão! Tem que dar o exemplo pro nosso filhinho."
"Não enche o saco, senão eu te largo e você vai ter esse filho sozinho!"

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

XXXI.1

...
"O que a gente vai fazer?"
"Vamos comprar um apartamento" ele pensou um pouco. "E eu vou deixar crescer o bigode."
Ela sorriu. "Pra quê?"
"Ué, tenho que parecer responsável!"
Ela levantou e pegou o controle remoto da televisão. Ficou apenas analisando a tela escura, sem apertar nenhum botão. Por que não?
"Eu vou largar a faculdade," ela disse. Porra. "Você não. Alguém tem que sustentar essa nossa família."
"AH! Nós temos que nos casar!"
"O quê? Ai meu deus."
"Você não quer se casar comigo?"
"A pergunta é 'você quer se casar comigo?'"
"Você quer?"
Ela fez um som de impaciência.
Ele pigarreou e formalizou sua expressão, franzindo as sobrancelhas, e, segurando sua mão e olhando em seus olhos, disse:
"Ana Lídia, você quer se casar comigo?"
"Meu nome é só Ana."
"Eu sei, mas tem que ficar mais melodramático."
"Ana Lídia não é aquele parque?"
"Sei lá."
"Ah, sim, eu quero me casar com você, Marcos Augusto!", ela exclamou, abraçando-o e sorrindo.
"É só Marcos," ele disse, acomodando os braços entorno dela e dando-lhe um beijinho na ponta do nariz.
"Tou sabendo."
...

(continua)

domingo, 25 de outubro de 2009

XXX

Il pleut de l'orangeade sur nos épaules
Ele deu um impulso e sentou-se na bancada da cozinha, balançando os chinelos nas pontas dos dedos. Batucou, de leve, sem perceber, os dedos nas bordas de azulejos verde-escuro, iguais ao restante dosque cobriam as paredes da cozinha antiga e pequena.
Na sua frente, Anabel estava de costas, picotando folhas de alface com precisão e determinação que denunciavam sua impaciência. A faca passava a milímetros de suas unhas esmaltadas, a uma velocidade impressionante, mas ela estava com a cabeça em outro lugar.
Anabel era uma moça de cores pálidas, a contrastar com sua pele morena Gostava de floreios e rodeios. Se queria dizer laranja, dizia salmão, amarelo-escuro ou "cor-de-laranja", referindo-se não a cor propriamente dita, mas à fruta. Gostava de nudes, lavandas, violetas, raros tons de ouro. Era uma sonhadora mas mantinha os pés no chão. Não sabia o que queria mas sabia onde procurar.
"Carlos, pega a cenoura na geladeira", ela pediu, apontando rapidamente com a faca. Dizia Carlos, mas ele entendia-se como Kadu, com a mãe como Carlos Eduardo. Ele somente era Carlos com Anabel.
Entregou a cenoura e deu-lhe um beijo no alto da cabeça. Pegou uma segunda tábua debaixo da pia, uma faca na gaveta e começou a fatiar umas rodelas de cebola.

Mais tarde, já sentados nos banquinhos altos de madeira, comendo a salada e tomando coca cola, Anabel finalmente falou, os olhos fixos na parede atrás de Kadu.
"Acho que vou me mudar."
Ele olhou-a, interrogativo. Han?
"O quê? Pra onde?"
"Pro Rio." Ela respondeu superficialmente, como se estivesse pensando em outras coisas.
"Mas pra quê?" Ele continuou comendo a salada.
"Sei lá. Mudar" fez uma pausa. "Fazer faculdade."
Kadu encarou o próprio garfo, espetado num tomatinho.
Anabel finalmente olhou para ele. A camisa azul marinho, os cabelos castanhos, o nariz curvo. Ele levantou a cabeça.
"Os seus olhos são exatamente da mesma cor dos azulejos da cozinha", ela disse. Ele não respondeu. Piscou algumas vezes, olhou para o lado. Levantou, ainda em silêncio, sério, e sentou no banco vazio ao lado do dela.
"E eu?" perguntou, suplicante e ofendido, arregalando os olhos para ela.
Anabel ficou de pé e abraçou-o, apoiando o queixo nos cabelos com cheiro de xampu.
"Vem comigo."

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

if you were there, beware
descendo a ladeira meio tropeçando nos próprios saltos, o vento lhe levantava vestido curto, o cabelo era uma criatura viva à sua volta. tateou à procura da bolsinha preta pendurada ao pescoço. uma das meias 7/8 estava na altura da canela, e eu não podia ver então, mas o batom vermelho estava completamente borrado. ela não olhava em volta. abriu a bolsinha e tirou o batom, que passou sem precisão alguma.
de repente, olhou-me direto nos olhos, seus olhos brilhando na luz fraca e fantasmagórica do único poste daquela rua úmida. eu, sem perceber, levantei-me do banco em que estava sentado. quer ajuda?, quis perguntar. ela não precisava de ajuda. seus passos vacilantes eram mais seguros que os meus, sóbrios sensatos racionais. eu era quem precisava de ajuda. da ajuda dela. quem é você?, pensei. não é da minha conta.
deu um passo em minha direção. meu coração parou, de súbito, para reiniciar seu galope em seguida. ela cresceu, não via mais seu rosto, ela estava a dois metros de mim e tudo que eu via era o halo da luz esverdeada em torno da sua cabeça, os cabelos se debatendo, o brilho dos olhos pretos e o batom vermelho.
ela estava a menos de um metro de mim quando parou. parou e me encarou por uma eternidade, daqueles olhos infinitos. levantou um braço trêmulo e pousou a mão em meu ombro, me lançando um olhar complacente, misericordioso.
antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, pensar ou reagir, ela desabou na calçada enlameada, a boca semiaberta e os olhos escancarados. sua bolsinha bateu no chão e todo seu conteúdo se espalhou pelo chão: o batom, um papel amassado e um frasco de veneno.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

IXX

"Vem aqui", ela pediu, esticando a perna para fora do lençol amarrotado. Analisou o esmalte rosa descascado. Ele estava de costas, no computador, vestindo apenas a bermuda cáqui. Levantou e deitou-se ao lado dela, que virou de lado e apoiou-se no cotovelo para acomodá-lo.
"Sabe o que eu mais gosto no seu quarto?" ela disse, indicando o teto do quarto, mal iluminado pela luz que passava pela fresta na cortina.
"Hm?"
"Daquela figurinha ali", disse, apontando para um adesivo do homem aranha, daqueles de pacode te cheetos, colado bem acima deles. "Dá um toque especial."
Ele riu. Seus dentes eram perfeitos. "Nem lembro disso. Devia ter uns 10 anos quando eu colei isso aí, sei lá."
Ela se arrastou para cima dele, para pousar em cima de seus músculos. Ele olhou-a com os olhos castanhos, quase pretos, ficou sério. O queixo, a boca, tudo. Ele era lindo. Ela lhe deu um beijo de leve e tombou a cabeça em seu peito, fechando os olhos e soltou um suspiro. Suspirou mais uma vez.
Uma música conhecida começou baixinho das caixinhas de som. Bob Dylan.
Ela sentou de uma vez, abandonando a expressão pensativa. Sorriu como quando tinha uma ideia.
"Carlos, me ensina a tocar violão?", e olhou para o velho violão apoiado na porta do armário.
Ele levantou as sobrancelhas grossas, sorrindo adoravelmente. "Você quer aprender mesmo ou só quer me pegar?" Levantou, pausou a música e foi pegar o violão. Sentou de novo na cama. "Vem cá."

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

XVIII

Viviane calçou os sapatos e se pôs na frente do espelho. Alta, mas não muito, um tanto quanto magra, mas tinha seus atributos. O cabelo alisado estava um pouco espetado atrás. O maior problema era a blusa listrada cinza e branca, que não combinava nem um pouco com o short. Pensando melhor, estava frio, ela deveria ir de calça. Abriu o armário e ia pegar uma jeans escura, quando viu uma calça amarelo marca-texto escondida sob os vestidos. Hmm. Tirou os sapatos, tirou o short e vestiu a segunda calça, analisando o efeito no espelho. Ok.
"CARALHO, VIVIANE, VAI LOGO" veio o berro de fora do quarto. Larissa, sempre tão estressada.
"Não estou com pressa!", ela respondeu para a irmã. Eram dez pras oito, no convite estava escrito oito horas. Ia demorar mais ou menos quinze minutos para chegar lá, e, contando o atraso elegante, ela ainda tinha muito tempo para se arrumar.
Ela ouviu a irmã dizer mais qualquer coisa, gritou "tá bom!", por via das dúvidas e calçou sapatilhas pretas. Brincos... Abriu o pequeno porta-jóias de pedra sabão, pegou brincos azuis escuros de plástico e se olhou mais uma vez no espelho de corpo inteiro. O conjunto estava de gosto meio duvidoso, mas quem se importa. Qual bolsa? Chega de cores. Pegou sua bolsa branca de algodão e transferiu quase todo seu conteúdo (a carteira rosa-antigo, o celular, o maço de Parliaments e os óculos escuros) para uma grande bolsa de couro preto e alças douradas.
Pôs uns grampinhos no cabelo, para segurar sua quase-franja no lugar. Não que eles fossem ficar lá por mais de meia hora.
Saindo do quarto e descendo as escadas, disse:
"Ok, vamos."
Larissa estava com um vestido azul bebê na altura do joelho, sandálias de couro cru marrom e um casaco branco.
"Aonde você vai?", perguntou Viviane.
"Pro shopping", respondeu, levantando do sofá e desligando a TV.
Larissa dirigia um Uno cinza. Era ou isso ou um Gol, e qualquer coisa é menos brega que um Gol. O Uno chega a ter sua graça, meio retrô. As duas entraram no carro em silêncio. Viviane estava com um pouco de sono. "Vai passar", ela pensou.
"Põe na Rihanna", Larissa pediu. Viviane apertou o botão 6, da rádio Mix. Estava tocando Rihanna.
Larissa era tão esquisita de vez em quando. "Larissa", ela pensou. "Larissa e Viviane. Viviane e Larissa". São dos nomes completamente diferentes, não parecem ter sido escolhidos pelos mesmos pais para duas irmãs. Larissa era em homenagem à avó das duas. Viviane a mãe que escolhera. Que saudades da vovó Larissa. Imagina se fosse o contrário, seria vovó Viviane. Depois ela se lembrou que será avó um dia. "Vovó Vivi". Riu.
Chegaram no prédio de Laila, para a festa de aniversário de Fábio. O pai de Laila estava sempre viajando, e a mãe dela morava a duas quadras de distância, o que possibilitava a Laila ficar sozinha em casa. As festinhas lá eram freqüentes.
"Tchau, sis", disse Viviane pegando a sacolinha dourada no banco de trás. Tinha comprado um CD, ninguém mais compra CDs, mas ela achou um presente legal.
"Divirta-se", recomendou Larissa com um sorrisinho.
"Ah. Eu vou dormir aqui, tá? Eu já falei com a minha mãe."
"Tá, tchau", disse, e foi embora, depois de abrir e fechar de novo a porta mal-fechada por Viviane.
O vento fez com que Viviane se arrependesse de não ter pego um casaco, mas tudo bem, lá em cima deve estar quente.
"Apartamento 503", disse para o porteiro, que apontou a direção da última porta sem precisar interfonar. Ela não devia ser a primeira a chegar, com certeza que não. Andou rápido, tremendo de frio. Apertou o botão do elevador, que estava no quinto andar. Se olhou no espelho ao lado, deu uma ajeitadinha e abriu a porta do elevador, agora no térreo.
Laila atendeu à campainha vestindo um short rosa-claro, uma camiseta branca e chuteiras pretas. Os cabelos brilhantes estavam meio presos num rabo de cavalo no alto da cabeça e ela sorria. Mas não estava bêbada.
Ainda.

domingo, 9 de agosto de 2009

moinho

Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida e já anuncias a hora da partida, sem saber mesmo o rumo que irás tomar. Preste atenção, querida: embora eu saiba que estás resolvida, em cada esquina cai um pouco tua vida. Em pouco tempo, não serás mais o que és. Ouça-me bem, amor, preste atenção: o mundo é um moinho. Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões à pó.
Preste atenção, querida. Em cada amor, tu herdarás só o cinismo. Quando notares, estás à beira do abismo, abismo que cavastes com teus pés.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

XVII

A luz entrava em fatias pela persiana, o que permitia distinguir umas poucas formas no quarto escuro: uma cadeira, um tapete semi-oculto de meias e camisetas sujas, e, sobre a cama, uma perna branquela e cabeluda e uma bunda coberta por uma boxer branca.

Marvin estava acordado, sabia que passava da uma da tarde, mas mantinha a cabeça enterrada sob o travesseiro e a porta fechada.
tzz tzz
tzz tzz
"Não vou atender."
Claro que vai.
tzz
hugo
paranananan-
"Vamos no cinema hoje?"
Ah, vamos, que saco.
"Que horas?"
"Três e mei-" foi interrompido pelo irmão, que perguntou: "Onde você está?"
"Na casa da Lígia. Você estava dormindo."
"Ah. Ok. Em que shopping?"
"No Pier. Quer vir pra cá agora?" Hugo percebeu que Marvin ficou tristinho. Mas ele estava de TPM e fazendo draminha porque tirou 2 em redação. E sei lá mais o que. Não estava afim de ficar ouvindo ele se lamentar.
Marvin desligou o telefone, jogou-o em cima do travesseiro e levantou. olhou para baixo. Sua barriga branca e cabeluda lhe deu bom-dia. Tropeçou em mochilas e livros até o interruptor e acendeu a luz. Abriu o armário, tirou uma calça jeans e uma camiseta verde e calçou sandálias de couro bege que encontrou perto da porta. Pegou o ipod em cima da mesa, enfiou o celular no bolso de trás e duas notas de vinte no da frente e saiu.
Os pais não estavam em casa. Apertou play. The Hush Sound. Não, hoje estou raivoso. The Bravery. Mas hoje eu estou triste. Coeur de Pirate. Mas é alegrinho. Porra. Pôs em The Killers quando chegou na parada. Eram cinco quadras, e ele não estava afim de andar.

domingo, 5 de julho de 2009

XXVI

Eu estava deitada na grama áspera, peito aberto para as estrelas, a boca rachada aberta num meio sorriso. Senti alguém ao meu lado, em pé, a roupa branca reluzindo azul. Abri um pouco os olhos, vem aqui.
Me envolvi nesse abraço meio pálido, meio abstrato, não controlava meus braços nem meus dedos.
Sentei, patética, olhos vermelhos inchados manchados, e sozinha. Chorei. Nem meus fantasmas me querem mais.

domingo, 24 de maio de 2009

XXV

she wore faded jeans

Eu não lembrava de você. É cômico, mas eu não lembrava. Você esperou uma resposta, mas tudo o que eu fiz foi sorrir meio amarelo para a sua cara que ia ficando cada vez mais branca e depois vermelha, e que não despertava em mim lembrança alguma. Você pôs o cabelo para trás da orelha (eu imagino que tenha posto - porque eu não lembro) e deu um sorriso mais amarelo que o meu. Meio verde.
"Tchau", você disse. Eu me senti aquele cara que faz a garota se sentir mal, aquele cara arrogante. Mas eu estava meio bêbado, então não pude me preocupar por muito tempo. Você foi embora, desapareceu entre as pessoas. Estava escuro e eu estava sem os meus óculos.
Por que eu estava sozinho? Eu estava sozinho? Não me lembro. Eu lembro que eu tinha uma lata de cerveja na mão. Meus dedos estavam gelados. Eu odiava cerveja, naquela época. Acho que agora eu me acostumei. Cerveja tem gosto de mijo.
Pensando melhor, você não disse tchau antes de ir embora. Você só foi, na certeza de que eu estaria bêbado e não ia me lembrar. Ponto para você.
Mas eu te encontrei de novo. Estava com o Caio, lembra do Caio, aquele do cabelinho assim. Ele tinha ido comprar uma caipirinha. Nunca vi ninguém gostar tanto de caipirinha quanto o Caio do cabelinho. Odeio caipirinha. Eu acabo enchendo a minha de açúcar, pra tentar fazer ficar bom. Na verdade, acho que eu não gosto de bebida nenhuma. Eu gosto de whisky, sempre gostei de whisky, aprendi com o meu pai a beber whisky, dos bons. E rum, eu bebo rum por causa da Fabi, que sempre que acabavam as provas comprava duas garrafas de rum e me chamava para beber com ela. Nos trancávamos no quarto dela, e cada um bebia uma garrafa de rum com coca light. Haha. Casou, Fabi casou, acredita? E aprendi a beber vodka com você. Três meses com você e eu bebia vodka como se fosse água. Café da manhã era vodka com suco de caju. Eu te encontrei de novo no bar, comprando uma tequila. Você também não gosta de tequila, amor. Você prendeu o cabelo com uma das mãos no topo da cabeça e se abanou com a outra. As suas bochechas estavam muito rosas. Sua maquiagem estava borrada. Então eu me lembrei!
Lembrei que nos conhecíamos, nos conheceramos um ano e meio atrás, no Pontão. Ainda fazem festas no pontão? Era ano novo! Eu estava lá, todo de branco, parecendo pai de santo, minha mãe insistiu, reveillón tem que ir de branco. Estava um saco, um calor dos infernos, eu de calça comprida. Um bando de bêbado. Vou beber também, eu disse. Um amigo me puxou, vamos beber. Eu já estava com uma latinha de cerveja (puta que pariu, eu odiava cerveja), e ele disse que fulaninho tava com duas garrafas de vodka. Opa. Vamos lá. Fomos mais uns quatro marmanjos, o Caio com aquela menininha que ele tava pegando. Manuela. Acho que tinha dois eles. Que coisa mais brega, Manuella. Tadinha da menina. Era até legalzinha. Sentamos, meio afastados do resto das pessoas, no escuro, com os pés pendurados quase tocando a água e dividindo todos o mesmo gargalo. Caio, o garanhão, foi agarrar sua menininha ali por perto. Eram onze e quinze e você chegou. Eu, mesmo bêbado, mesmo do ângulo errado, no escuro, tarde, eu reconheci que você não estava bem de acordo com a situação. Você usava chinelos, não daqueles havaianas, mas um de tecido, coisa esquisita, uma calça jeans velha, larga, desfiada na barra onde você pisava e uma camiseta preta de alcinhas. Eu estava muito bêbado. E você era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
Mas eu tenho essa teoria de que os bêbados estão em contato com o mais íntimo de suas almas, e, consequentemente, com os segredos do universo. O álcool transpõe essa barreira sem destruí-la. Sim, eu pensei nisso bêbado.
Você sorriu e disse: "A gente pode sentar aqui com vocês?", apontando para a vodka. Tinham mais três garotas com você. Elas estavam arrumadas. Você sentou do meu lado e pendurou os pés para fora do concreto como eu. Você falou alguma coisa, mas eu não entendi. Você queria a vodka. Nunca vi ninguém beber vodka como você, meu amor. Você pareceu mais alegre, seus olhos ficaram mais estrábicos. Eu amo seu estrabismo alcoólico. Você balançou os pés, o seu chinelo caiu na água. Você começou a xingar, porque você gostava muito daquele chinelo. E ele ia boiando para mais longe e você ia se desesperando mais e xingando mais. Eu comecei a lutar pela sua causa também. Deitei de barriga para baixo, estiquei o meu braço o máximo que eu pude, mas não alcancei. Sentei, me estiquei todo para tentar pegar com o pé, mas em vão. Lá se ia seu chinelinho bicho-grilo. Eu quase caí no lago por você, meu bem, e nos conhecíamos há 15 minutos. Molhei a ponta do meu tênis por você, amor.
Começamos a conversar. Você falava sem parar. Eu falava pra cacete também. Esquecemos do resto dos nossos amigos, levantamos, você cinderela sem o seu chinelinho e eu com a segunda garrafa de vodka que já ia pela metade na mão. Sentamos na grama, no meio da grama molhada. Caímos, sei lá. Você deu um gole. Eu te beijei. Tinha gosto de álcool e de tangerina, você pôs os dedos na minha nuca. Meia-noite. Fogos de artifício. Por fora. Por dentro eu sentia luzinhas leitosas por todo o meu corpo. Eu as sentia no seu corpo também. Talvez não tenha sido só vodka naquela noite.
É engraçado como eu sempre sinto gosto de tangerina. Eu nem gosto de tangerina.
Você não tinha passado em casa antes para se trocar para a festa. Tinha separado um vestido branco, reveillón tem que ser de branco, mas não deu tempo de trocar, você tava em algum lugar antes. Eu lembro, viu, amor. Você queria encontrar alguém na festa, um cara, sei lá.
Nós falamos sob as estrelas. Você acabou perdendo o outro chinelo também, seus dedinhos são tão lindinhos. Você recostou a cabeça no meu ombro e eu te beijei mais uma vez. Você caiu no sono. Amanheceu.
Estava friozinho, seus pezinhos estavam gelados, e você se levantou. Eu disse:
"Se eu tivesse um carro, eu te oferecia uma carona."
Você riu, mas eu não tinha um carro, eu tinha um celular, o número do táxi e o dinheiro que mamãe me deu. Você disse "eu vou para a casa da minha amiga."
O táxi chegou, ele passou na casa da sua amiga, que era a caminho da minha casa e você foi embora. Você não ligou. Eu te dei o meu número. Você não me ligou mas sorriu para mim um ano e meio depois, num show barulhento e sujinho.
(cont.)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

XIV.II

Nada além de um grunhido pouco significativo, foi o que ele conseguiu pronunciar, com certa dificuldade. As notas de um piano próximo distoavam das que ele esboçava na cabeça, atrapalhando a próxima série de grunhidos. Entreabriu os olhos, e não conseguiu focar nada à sua frente. Sentia algo perfurando suas costas. Uma faca, uma unha, uma pedra. Um calor excessivo tomava conta do seu braço esquerdo. Concentrou-se nele, virando milimetricamente o pescoço e tornando a abrir os olhos. Reconheceu, por fim, os cabelos crespos, o batom vermelho e os olhos pretos, e os dedos finos apertando seu pulso, com desespero. E sentiu o cheiro de sangue e de vômito, seu sangue e seu vômito, encharcando seu cabelo e manchando a camisa. Tentou abrir a boca, e soprar algumas palavras. Resumiu-as, e escolheu uma, com um esforço desproporcional para contrair os músculos necessários, sussurou-a para os olhos inchados à sua frente:

"Puta."

O mundo prendeu a respiração por um momento, imperceptível, desnecessário, e os olhos sob o cabelo encaracolado, sujo e castanho se fecharam.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

AI QUE ÓDIO.
Ódio da vida, ódio de tudo, de você, de mim. Não sinto raiva. Sinto ódio. Me arde por dentro, por fora, me sobe pelo pescoço e me treme o coração. Tenho vontade de gritar e gritar e gritar e dormir. Não gosto do escuro, mas odeio enxergar. Quero tomar um porre. Odeio beber. Saio correndo, mas não consigo me mexer. Meus joelhos cedem, mas eu não caio. Permaneço em pé, gritando, chorando, ardendo. Quero acordar. Preciso de um porre. Ódio ódio ódio ódio sai daqui, não te quero. Quero você de volta, baby. Nunca me deixe. Nunca jamais. Grito de novo. Estou voando, estou colada no chão, não sei. Onde. O chão frio. Te rasgo com as minhas unhas que não vejo, mordo com os dentes que não tenho. Tremo. Cadê você baby. Estou caindo. Nunca jamais. Não te amo. Não te quero. Mas volta pra mim.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

XXIII

Je t'aime already

Olhos castanhos. Um metro e oitenta e três. Acho que são verdes. Os olhos. Sei lá.
Ele não veio na minha direção como se o imã do destino o tivesse levado ate lá, não me olhou nos olhos, muito menos me encarou, não usava uma calça escura e uma camiseta branca, não usava allstar preto, não estava sozinho nem acompanhado por uma loura bonita. Ele estava com uma calça verde de tactel, a camiseta do uniforme e era uma ano mais novo que eu.
Foi numa quinta-feira quente, fedorenta, o ar condicionado da sala quebrado, a grama estava seca e eu resolvi matar o último horário, de espanhol. Não fui a única, no entanto. A salinha da disciplina estava lotada por babacas barulhentos do terceiro ano, babacas amigos meus do segundo, babacas do primeiro e uma estagiária com cara de nojenta, gorda e com uma calça jeans azul bic, daquelas da Marisa.
Mas eu vi quando ele entrou. Eu tenho isso de prestar atenção nessas coisas. Tipo em caras comuns, ou que se destacam porque são meio feios, etc. Eu tenho um pug. Ele chegou com dois amigos, cada um segurando um copinho bege, usando aquela manjadíssima desculpa para se atrasar para aula. Chegou um pouco depois de mim, e sentou bem no meio da sala, na penúltima carteira. Eu estava do lado direito, na última carteira.
A estagiária começou a perguntar os nomes e as turmas com aquela cara de bunda. Meu instinto stalker falou alto e eu me vi prestando atenção ao que ele disse. Primeiro ano B, número 12. Ok. Se eu tiver que ir olhar na lista de chamada da sala do primeiro ano para descobrir o nome dele, eu vou. E foi o que eu fiz. Não imediatamente. No sábado teve teste e eu tive uma desculpa para circular entre as salas. Eduardo. Hihi.
O perfil dele não dizia absolutamente nada, nem o time para o qual ele torcia. Ele gostava de gatos, de the Cure, conhecia/amava/gostava de fulaninha e estudava no sigma.
É claro que eu nunca cheguei a falar com ele. E praticamente nunca mais o encontrei, naquela escola cheia do capeta, onde você só encontra meninos ruivos que te abraçam.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

XVII.I

"Cacete, cacete, cacete.", xingava André, andando de um lado para o outro na sala, remexendo os bolsos da calça e do paletó jogado no sofá. "Porra. Perdi meu zippo.""É um sinal dos céus", gritou Laila da cozinha, onde lavava alguns copos, usando apenas um sutiã e um short azul de pijama. "Pra você parar de fumar." Comentário que nem de longe acalmou André. "Velho! Eu paguei mais de cem reais nessa porra!", ele continuava. "Comprei anteontem, cacete!" Ele foi até a cozinha, perguntou onde tinha um isqueiro.

"E fósforo?"
"Acende no fogão," sugeriu Laila, desinteressada, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de vodka no congelador e uma de rum na porta.
Foi o que André fez, de má vontade. Abaixou a cabeça, com o cigarro pendurado na boca, e acendeu-o na chama azul do fogão de aço inoxidado, soltando uma baforada mal-criada por toda a cozinha e voltou para sala atrás de Laila.
Cíntia estava meio jogada no sofá, com as pernas penduradas por cima do braço do sofá e a cabeça apoiada no colo do amigo de André. O vestido azul estava meio levantado, deixando a calcinha branca à mostra. Hmm.
"Hugo", André disse, ainda nervoso. "Você viu meu isqueiro?"
"Não vi não."
"PORRA", ele exclamou. Cíntia abriu ligeiramente os olhos e fitou o amigo por um instante. Fechou-os novamente, como se estivesse tomando uma decisão, e sentou-se. Esticou as pernas e repousou os pés na mesa de centro, e depois olhou para Laila. Mais especificamente para a garrafa em suas mãos. Ela sorriu ao encontrar o olhar da amiga semi-nua. Cíntia levantou-se de uma vez só, tomou a garrafa das mãos de Laila e rumou lentamente para o quarto, olhando-a sugestivamente. Hm.
André levantou uma sobrancelha para Hugo. Os dois levantaram simultaneamente, e seguiram as duas pelo corredor. Hm.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

XXII.part1

"I've been thinking", ela começou. Os olhos focados na água cintilante.
"About?", a outra perguntou.
Uma pausa. Um pouco longa. O vento soprou, de leve, passou uma libélula.
"Eu te amo."
Disse e olhou para baixo. Não olhou a outra nos olhos. Procurou evitar o brilho dos cabelos. Não conseguiu.
"Hm."
Era uma palavra avulsa, sem qualquer sentido. Mesmo assim, ela continuou.
"No sé como decirte..."
"Você acabou de fazer isso."
"But I still don't know how."

domingo, 18 de janeiro de 2009

XXI

you'd better free your mind instead
YOU SAY YOU WANT A REVOLUTION
WELL, YOU KNOW
WE ALL WANNA CHANGE THE WORLD

YOU TELL ME THAT IT'S EVOLUTION
WELL, YOU KNOW
WE ALL WANNA CHANGE THE WORLD

BUT WHEN YOU TALK ABOUT DESTRUCTION
DON'T YOU KNOW THAT YOU CAN COUNT ME OUT?