Ele não veio na minha direção como se o imã do destino o tivesse levado ate lá, não me olhou nos olhos, muito menos me encarou, não usava uma calça escura e uma camiseta branca, não usava allstar preto, não estava sozinho nem acompanhado por uma loura bonita. Ele estava com uma calça verde de tactel, a camiseta do uniforme e era uma ano mais novo que eu.
Foi numa quinta-feira quente, fedorenta, o ar condicionado da sala quebrado, a grama estava seca e eu resolvi matar o último horário, de espanhol. Não fui a única, no entanto. A salinha da disciplina estava lotada por babacas barulhentos do terceiro ano, babacas amigos meus do segundo, babacas do primeiro e uma estagiária com cara de nojenta, gorda e com uma calça jeans azul bic, daquelas da Marisa.
Mas eu vi quando ele entrou. Eu tenho isso de prestar atenção nessas coisas. Tipo em caras comuns, ou que se destacam porque são meio feios, etc. Eu tenho um pug. Ele chegou com dois amigos, cada um segurando um copinho bege, usando aquela manjadíssima desculpa para se atrasar para aula. Chegou um pouco depois de mim, e sentou bem no meio da sala, na penúltima carteira. Eu estava do lado direito, na última carteira.
A estagiária começou a perguntar os nomes e as turmas com aquela cara de bunda. Meu instinto stalker falou alto e eu me vi prestando atenção ao que ele disse. Primeiro ano B, número 12. Ok. Se eu tiver que ir olhar na lista de chamada da sala do primeiro ano para descobrir o nome dele, eu vou. E foi o que eu fiz. Não imediatamente. No sábado teve teste e eu tive uma desculpa para circular entre as salas. Eduardo. Hihi.
O perfil dele não dizia absolutamente nada, nem o time para o qual ele torcia. Ele gostava de gatos, de the Cure, conhecia/amava/gostava de fulaninha e estudava no sigma.
É claro que eu nunca cheguei a falar com ele. E praticamente nunca mais o encontrei, naquela escola cheia do capeta, onde você só encontra meninos ruivos que te abraçam.


