sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

XXIII

Je t'aime already

Olhos castanhos. Um metro e oitenta e três. Acho que são verdes. Os olhos. Sei lá.
Ele não veio na minha direção como se o imã do destino o tivesse levado ate lá, não me olhou nos olhos, muito menos me encarou, não usava uma calça escura e uma camiseta branca, não usava allstar preto, não estava sozinho nem acompanhado por uma loura bonita. Ele estava com uma calça verde de tactel, a camiseta do uniforme e era uma ano mais novo que eu.
Foi numa quinta-feira quente, fedorenta, o ar condicionado da sala quebrado, a grama estava seca e eu resolvi matar o último horário, de espanhol. Não fui a única, no entanto. A salinha da disciplina estava lotada por babacas barulhentos do terceiro ano, babacas amigos meus do segundo, babacas do primeiro e uma estagiária com cara de nojenta, gorda e com uma calça jeans azul bic, daquelas da Marisa.
Mas eu vi quando ele entrou. Eu tenho isso de prestar atenção nessas coisas. Tipo em caras comuns, ou que se destacam porque são meio feios, etc. Eu tenho um pug. Ele chegou com dois amigos, cada um segurando um copinho bege, usando aquela manjadíssima desculpa para se atrasar para aula. Chegou um pouco depois de mim, e sentou bem no meio da sala, na penúltima carteira. Eu estava do lado direito, na última carteira.
A estagiária começou a perguntar os nomes e as turmas com aquela cara de bunda. Meu instinto stalker falou alto e eu me vi prestando atenção ao que ele disse. Primeiro ano B, número 12. Ok. Se eu tiver que ir olhar na lista de chamada da sala do primeiro ano para descobrir o nome dele, eu vou. E foi o que eu fiz. Não imediatamente. No sábado teve teste e eu tive uma desculpa para circular entre as salas. Eduardo. Hihi.
O perfil dele não dizia absolutamente nada, nem o time para o qual ele torcia. Ele gostava de gatos, de the Cure, conhecia/amava/gostava de fulaninha e estudava no sigma.
É claro que eu nunca cheguei a falar com ele. E praticamente nunca mais o encontrei, naquela escola cheia do capeta, onde você só encontra meninos ruivos que te abraçam.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

XVII.I

"Cacete, cacete, cacete.", xingava André, andando de um lado para o outro na sala, remexendo os bolsos da calça e do paletó jogado no sofá. "Porra. Perdi meu zippo.""É um sinal dos céus", gritou Laila da cozinha, onde lavava alguns copos, usando apenas um sutiã e um short azul de pijama. "Pra você parar de fumar." Comentário que nem de longe acalmou André. "Velho! Eu paguei mais de cem reais nessa porra!", ele continuava. "Comprei anteontem, cacete!" Ele foi até a cozinha, perguntou onde tinha um isqueiro.

"E fósforo?"
"Acende no fogão," sugeriu Laila, desinteressada, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de vodka no congelador e uma de rum na porta.
Foi o que André fez, de má vontade. Abaixou a cabeça, com o cigarro pendurado na boca, e acendeu-o na chama azul do fogão de aço inoxidado, soltando uma baforada mal-criada por toda a cozinha e voltou para sala atrás de Laila.
Cíntia estava meio jogada no sofá, com as pernas penduradas por cima do braço do sofá e a cabeça apoiada no colo do amigo de André. O vestido azul estava meio levantado, deixando a calcinha branca à mostra. Hmm.
"Hugo", André disse, ainda nervoso. "Você viu meu isqueiro?"
"Não vi não."
"PORRA", ele exclamou. Cíntia abriu ligeiramente os olhos e fitou o amigo por um instante. Fechou-os novamente, como se estivesse tomando uma decisão, e sentou-se. Esticou as pernas e repousou os pés na mesa de centro, e depois olhou para Laila. Mais especificamente para a garrafa em suas mãos. Ela sorriu ao encontrar o olhar da amiga semi-nua. Cíntia levantou-se de uma vez só, tomou a garrafa das mãos de Laila e rumou lentamente para o quarto, olhando-a sugestivamente. Hm.
André levantou uma sobrancelha para Hugo. Os dois levantaram simultaneamente, e seguiram as duas pelo corredor. Hm.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

XXII.part1

"I've been thinking", ela começou. Os olhos focados na água cintilante.
"About?", a outra perguntou.
Uma pausa. Um pouco longa. O vento soprou, de leve, passou uma libélula.
"Eu te amo."
Disse e olhou para baixo. Não olhou a outra nos olhos. Procurou evitar o brilho dos cabelos. Não conseguiu.
"Hm."
Era uma palavra avulsa, sem qualquer sentido. Mesmo assim, ela continuou.
"No sé como decirte..."
"Você acabou de fazer isso."
"But I still don't know how."