domingo, 24 de maio de 2009

XXV

she wore faded jeans

Eu não lembrava de você. É cômico, mas eu não lembrava. Você esperou uma resposta, mas tudo o que eu fiz foi sorrir meio amarelo para a sua cara que ia ficando cada vez mais branca e depois vermelha, e que não despertava em mim lembrança alguma. Você pôs o cabelo para trás da orelha (eu imagino que tenha posto - porque eu não lembro) e deu um sorriso mais amarelo que o meu. Meio verde.
"Tchau", você disse. Eu me senti aquele cara que faz a garota se sentir mal, aquele cara arrogante. Mas eu estava meio bêbado, então não pude me preocupar por muito tempo. Você foi embora, desapareceu entre as pessoas. Estava escuro e eu estava sem os meus óculos.
Por que eu estava sozinho? Eu estava sozinho? Não me lembro. Eu lembro que eu tinha uma lata de cerveja na mão. Meus dedos estavam gelados. Eu odiava cerveja, naquela época. Acho que agora eu me acostumei. Cerveja tem gosto de mijo.
Pensando melhor, você não disse tchau antes de ir embora. Você só foi, na certeza de que eu estaria bêbado e não ia me lembrar. Ponto para você.
Mas eu te encontrei de novo. Estava com o Caio, lembra do Caio, aquele do cabelinho assim. Ele tinha ido comprar uma caipirinha. Nunca vi ninguém gostar tanto de caipirinha quanto o Caio do cabelinho. Odeio caipirinha. Eu acabo enchendo a minha de açúcar, pra tentar fazer ficar bom. Na verdade, acho que eu não gosto de bebida nenhuma. Eu gosto de whisky, sempre gostei de whisky, aprendi com o meu pai a beber whisky, dos bons. E rum, eu bebo rum por causa da Fabi, que sempre que acabavam as provas comprava duas garrafas de rum e me chamava para beber com ela. Nos trancávamos no quarto dela, e cada um bebia uma garrafa de rum com coca light. Haha. Casou, Fabi casou, acredita? E aprendi a beber vodka com você. Três meses com você e eu bebia vodka como se fosse água. Café da manhã era vodka com suco de caju. Eu te encontrei de novo no bar, comprando uma tequila. Você também não gosta de tequila, amor. Você prendeu o cabelo com uma das mãos no topo da cabeça e se abanou com a outra. As suas bochechas estavam muito rosas. Sua maquiagem estava borrada. Então eu me lembrei!
Lembrei que nos conhecíamos, nos conheceramos um ano e meio atrás, no Pontão. Ainda fazem festas no pontão? Era ano novo! Eu estava lá, todo de branco, parecendo pai de santo, minha mãe insistiu, reveillón tem que ir de branco. Estava um saco, um calor dos infernos, eu de calça comprida. Um bando de bêbado. Vou beber também, eu disse. Um amigo me puxou, vamos beber. Eu já estava com uma latinha de cerveja (puta que pariu, eu odiava cerveja), e ele disse que fulaninho tava com duas garrafas de vodka. Opa. Vamos lá. Fomos mais uns quatro marmanjos, o Caio com aquela menininha que ele tava pegando. Manuela. Acho que tinha dois eles. Que coisa mais brega, Manuella. Tadinha da menina. Era até legalzinha. Sentamos, meio afastados do resto das pessoas, no escuro, com os pés pendurados quase tocando a água e dividindo todos o mesmo gargalo. Caio, o garanhão, foi agarrar sua menininha ali por perto. Eram onze e quinze e você chegou. Eu, mesmo bêbado, mesmo do ângulo errado, no escuro, tarde, eu reconheci que você não estava bem de acordo com a situação. Você usava chinelos, não daqueles havaianas, mas um de tecido, coisa esquisita, uma calça jeans velha, larga, desfiada na barra onde você pisava e uma camiseta preta de alcinhas. Eu estava muito bêbado. E você era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
Mas eu tenho essa teoria de que os bêbados estão em contato com o mais íntimo de suas almas, e, consequentemente, com os segredos do universo. O álcool transpõe essa barreira sem destruí-la. Sim, eu pensei nisso bêbado.
Você sorriu e disse: "A gente pode sentar aqui com vocês?", apontando para a vodka. Tinham mais três garotas com você. Elas estavam arrumadas. Você sentou do meu lado e pendurou os pés para fora do concreto como eu. Você falou alguma coisa, mas eu não entendi. Você queria a vodka. Nunca vi ninguém beber vodka como você, meu amor. Você pareceu mais alegre, seus olhos ficaram mais estrábicos. Eu amo seu estrabismo alcoólico. Você balançou os pés, o seu chinelo caiu na água. Você começou a xingar, porque você gostava muito daquele chinelo. E ele ia boiando para mais longe e você ia se desesperando mais e xingando mais. Eu comecei a lutar pela sua causa também. Deitei de barriga para baixo, estiquei o meu braço o máximo que eu pude, mas não alcancei. Sentei, me estiquei todo para tentar pegar com o pé, mas em vão. Lá se ia seu chinelinho bicho-grilo. Eu quase caí no lago por você, meu bem, e nos conhecíamos há 15 minutos. Molhei a ponta do meu tênis por você, amor.
Começamos a conversar. Você falava sem parar. Eu falava pra cacete também. Esquecemos do resto dos nossos amigos, levantamos, você cinderela sem o seu chinelinho e eu com a segunda garrafa de vodka que já ia pela metade na mão. Sentamos na grama, no meio da grama molhada. Caímos, sei lá. Você deu um gole. Eu te beijei. Tinha gosto de álcool e de tangerina, você pôs os dedos na minha nuca. Meia-noite. Fogos de artifício. Por fora. Por dentro eu sentia luzinhas leitosas por todo o meu corpo. Eu as sentia no seu corpo também. Talvez não tenha sido só vodka naquela noite.
É engraçado como eu sempre sinto gosto de tangerina. Eu nem gosto de tangerina.
Você não tinha passado em casa antes para se trocar para a festa. Tinha separado um vestido branco, reveillón tem que ser de branco, mas não deu tempo de trocar, você tava em algum lugar antes. Eu lembro, viu, amor. Você queria encontrar alguém na festa, um cara, sei lá.
Nós falamos sob as estrelas. Você acabou perdendo o outro chinelo também, seus dedinhos são tão lindinhos. Você recostou a cabeça no meu ombro e eu te beijei mais uma vez. Você caiu no sono. Amanheceu.
Estava friozinho, seus pezinhos estavam gelados, e você se levantou. Eu disse:
"Se eu tivesse um carro, eu te oferecia uma carona."
Você riu, mas eu não tinha um carro, eu tinha um celular, o número do táxi e o dinheiro que mamãe me deu. Você disse "eu vou para a casa da minha amiga."
O táxi chegou, ele passou na casa da sua amiga, que era a caminho da minha casa e você foi embora. Você não ligou. Eu te dei o meu número. Você não me ligou mas sorriu para mim um ano e meio depois, num show barulhento e sujinho.
(cont.)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

XIV.II

Nada além de um grunhido pouco significativo, foi o que ele conseguiu pronunciar, com certa dificuldade. As notas de um piano próximo distoavam das que ele esboçava na cabeça, atrapalhando a próxima série de grunhidos. Entreabriu os olhos, e não conseguiu focar nada à sua frente. Sentia algo perfurando suas costas. Uma faca, uma unha, uma pedra. Um calor excessivo tomava conta do seu braço esquerdo. Concentrou-se nele, virando milimetricamente o pescoço e tornando a abrir os olhos. Reconheceu, por fim, os cabelos crespos, o batom vermelho e os olhos pretos, e os dedos finos apertando seu pulso, com desespero. E sentiu o cheiro de sangue e de vômito, seu sangue e seu vômito, encharcando seu cabelo e manchando a camisa. Tentou abrir a boca, e soprar algumas palavras. Resumiu-as, e escolheu uma, com um esforço desproporcional para contrair os músculos necessários, sussurou-a para os olhos inchados à sua frente:

"Puta."

O mundo prendeu a respiração por um momento, imperceptível, desnecessário, e os olhos sob o cabelo encaracolado, sujo e castanho se fecharam.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

AI QUE ÓDIO.
Ódio da vida, ódio de tudo, de você, de mim. Não sinto raiva. Sinto ódio. Me arde por dentro, por fora, me sobe pelo pescoço e me treme o coração. Tenho vontade de gritar e gritar e gritar e dormir. Não gosto do escuro, mas odeio enxergar. Quero tomar um porre. Odeio beber. Saio correndo, mas não consigo me mexer. Meus joelhos cedem, mas eu não caio. Permaneço em pé, gritando, chorando, ardendo. Quero acordar. Preciso de um porre. Ódio ódio ódio ódio sai daqui, não te quero. Quero você de volta, baby. Nunca me deixe. Nunca jamais. Grito de novo. Estou voando, estou colada no chão, não sei. Onde. O chão frio. Te rasgo com as minhas unhas que não vejo, mordo com os dentes que não tenho. Tremo. Cadê você baby. Estou caindo. Nunca jamais. Não te amo. Não te quero. Mas volta pra mim.