Nada além de um grunhido pouco significativo, foi o que ele conseguiu pronunciar, com certa dificuldade. As notas de um piano próximo distoavam das que ele esboçava na cabeça, atrapalhando a próxima série de grunhidos. Entreabriu os olhos, e não conseguiu focar nada à sua frente. Sentia algo perfurando suas costas. Uma faca, uma unha, uma pedra. Um calor excessivo tomava conta do seu braço esquerdo. Concentrou-se nele, virando milimetricamente o pescoço e tornando a abrir os olhos. Reconheceu, por fim, os cabelos crespos, o batom vermelho e os olhos pretos, e os dedos finos apertando seu pulso, com desespero. E sentiu o cheiro de sangue e de vômito, seu sangue e seu vômito, encharcando seu cabelo e manchando a camisa. Tentou abrir a boca, e soprar algumas palavras. Resumiu-as, e escolheu uma, com um esforço desproporcional para contrair os músculos necessários, sussurou-a para os olhos inchados à sua frente:
"Puta."
O mundo prendeu a respiração por um momento, imperceptível, desnecessário, e os olhos sob o cabelo encaracolado, sujo e castanho se fecharam.

Um comentário:
ai caramba, to desatualizada no seu conto
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