domingo, 25 de outubro de 2009

XXX

Il pleut de l'orangeade sur nos épaules
Ele deu um impulso e sentou-se na bancada da cozinha, balançando os chinelos nas pontas dos dedos. Batucou, de leve, sem perceber, os dedos nas bordas de azulejos verde-escuro, iguais ao restante dosque cobriam as paredes da cozinha antiga e pequena.
Na sua frente, Anabel estava de costas, picotando folhas de alface com precisão e determinação que denunciavam sua impaciência. A faca passava a milímetros de suas unhas esmaltadas, a uma velocidade impressionante, mas ela estava com a cabeça em outro lugar.
Anabel era uma moça de cores pálidas, a contrastar com sua pele morena Gostava de floreios e rodeios. Se queria dizer laranja, dizia salmão, amarelo-escuro ou "cor-de-laranja", referindo-se não a cor propriamente dita, mas à fruta. Gostava de nudes, lavandas, violetas, raros tons de ouro. Era uma sonhadora mas mantinha os pés no chão. Não sabia o que queria mas sabia onde procurar.
"Carlos, pega a cenoura na geladeira", ela pediu, apontando rapidamente com a faca. Dizia Carlos, mas ele entendia-se como Kadu, com a mãe como Carlos Eduardo. Ele somente era Carlos com Anabel.
Entregou a cenoura e deu-lhe um beijo no alto da cabeça. Pegou uma segunda tábua debaixo da pia, uma faca na gaveta e começou a fatiar umas rodelas de cebola.

Mais tarde, já sentados nos banquinhos altos de madeira, comendo a salada e tomando coca cola, Anabel finalmente falou, os olhos fixos na parede atrás de Kadu.
"Acho que vou me mudar."
Ele olhou-a, interrogativo. Han?
"O quê? Pra onde?"
"Pro Rio." Ela respondeu superficialmente, como se estivesse pensando em outras coisas.
"Mas pra quê?" Ele continuou comendo a salada.
"Sei lá. Mudar" fez uma pausa. "Fazer faculdade."
Kadu encarou o próprio garfo, espetado num tomatinho.
Anabel finalmente olhou para ele. A camisa azul marinho, os cabelos castanhos, o nariz curvo. Ele levantou a cabeça.
"Os seus olhos são exatamente da mesma cor dos azulejos da cozinha", ela disse. Ele não respondeu. Piscou algumas vezes, olhou para o lado. Levantou, ainda em silêncio, sério, e sentou no banco vazio ao lado do dela.
"E eu?" perguntou, suplicante e ofendido, arregalando os olhos para ela.
Anabel ficou de pé e abraçou-o, apoiando o queixo nos cabelos com cheiro de xampu.
"Vem comigo."

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

if you were there, beware
descendo a ladeira meio tropeçando nos próprios saltos, o vento lhe levantava vestido curto, o cabelo era uma criatura viva à sua volta. tateou à procura da bolsinha preta pendurada ao pescoço. uma das meias 7/8 estava na altura da canela, e eu não podia ver então, mas o batom vermelho estava completamente borrado. ela não olhava em volta. abriu a bolsinha e tirou o batom, que passou sem precisão alguma.
de repente, olhou-me direto nos olhos, seus olhos brilhando na luz fraca e fantasmagórica do único poste daquela rua úmida. eu, sem perceber, levantei-me do banco em que estava sentado. quer ajuda?, quis perguntar. ela não precisava de ajuda. seus passos vacilantes eram mais seguros que os meus, sóbrios sensatos racionais. eu era quem precisava de ajuda. da ajuda dela. quem é você?, pensei. não é da minha conta.
deu um passo em minha direção. meu coração parou, de súbito, para reiniciar seu galope em seguida. ela cresceu, não via mais seu rosto, ela estava a dois metros de mim e tudo que eu via era o halo da luz esverdeada em torno da sua cabeça, os cabelos se debatendo, o brilho dos olhos pretos e o batom vermelho.
ela estava a menos de um metro de mim quando parou. parou e me encarou por uma eternidade, daqueles olhos infinitos. levantou um braço trêmulo e pousou a mão em meu ombro, me lançando um olhar complacente, misericordioso.
antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, pensar ou reagir, ela desabou na calçada enlameada, a boca semiaberta e os olhos escancarados. sua bolsinha bateu no chão e todo seu conteúdo se espalhou pelo chão: o batom, um papel amassado e um frasco de veneno.