Il pleut de l'orangeade sur nos épaulesEle deu um impulso e sentou-se na bancada da cozinha, balançando os chinelos nas pontas dos dedos. Batucou, de leve, sem perceber, os dedos nas bordas de azulejos verde-escuro, iguais ao restante dosque cobriam as paredes da cozinha antiga e pequena.
Na sua frente, Anabel estava de costas, picotando folhas de alface com precisão e determinação que denunciavam sua impaciência. A faca passava a milímetros de suas unhas esmaltadas, a uma velocidade impressionante, mas ela estava com a cabeça em outro lugar.
Anabel era uma moça de cores pálidas, a contrastar com sua pele morena Gostava de floreios e rodeios. Se queria dizer laranja, dizia salmão, amarelo-escuro ou "cor-de-laranja", referindo-se não a cor propriamente dita, mas à fruta. Gostava de nudes, lavandas, violetas, raros tons de ouro. Era uma sonhadora mas mantinha os pés no chão. Não sabia o que queria mas sabia onde procurar.
"Carlos, pega a cenoura na geladeira", ela pediu, apontando rapidamente com a faca. Dizia Carlos, mas ele entendia-se como Kadu, com a mãe como Carlos Eduardo. Ele somente era Carlos com Anabel.
Entregou a cenoura e deu-lhe um beijo no alto da cabeça. Pegou uma segunda tábua debaixo da pia, uma faca na gaveta e começou a fatiar umas rodelas de cebola.
Mais tarde, já sentados nos banquinhos altos de madeira, comendo a salada e tomando coca cola, Anabel finalmente falou, os olhos fixos na parede atrás de Kadu.
"Acho que vou me mudar."
Ele olhou-a, interrogativo. Han?
"O quê? Pra onde?"
"Pro Rio." Ela respondeu superficialmente, como se estivesse pensando em outras coisas.
"Mas pra quê?" Ele continuou comendo a salada.
"Sei lá. Mudar" fez uma pausa. "Fazer faculdade."
Kadu encarou o próprio garfo, espetado num tomatinho.
Anabel finalmente olhou para ele. A camisa azul marinho, os cabelos castanhos, o nariz curvo. Ele levantou a cabeça.
"Os seus olhos são exatamente da mesma cor dos azulejos da cozinha", ela disse. Ele não respondeu. Piscou algumas vezes, olhou para o lado. Levantou, ainda em silêncio, sério, e sentou no banco vazio ao lado do dela.
"E eu?" perguntou, suplicante e ofendido, arregalando os olhos para ela.
Anabel ficou de pé e abraçou-o, apoiando o queixo nos cabelos com cheiro de xampu.
"Vem comigo."

