segunda-feira, 5 de outubro de 2009

if you were there, beware
descendo a ladeira meio tropeçando nos próprios saltos, o vento lhe levantava vestido curto, o cabelo era uma criatura viva à sua volta. tateou à procura da bolsinha preta pendurada ao pescoço. uma das meias 7/8 estava na altura da canela, e eu não podia ver então, mas o batom vermelho estava completamente borrado. ela não olhava em volta. abriu a bolsinha e tirou o batom, que passou sem precisão alguma.
de repente, olhou-me direto nos olhos, seus olhos brilhando na luz fraca e fantasmagórica do único poste daquela rua úmida. eu, sem perceber, levantei-me do banco em que estava sentado. quer ajuda?, quis perguntar. ela não precisava de ajuda. seus passos vacilantes eram mais seguros que os meus, sóbrios sensatos racionais. eu era quem precisava de ajuda. da ajuda dela. quem é você?, pensei. não é da minha conta.
deu um passo em minha direção. meu coração parou, de súbito, para reiniciar seu galope em seguida. ela cresceu, não via mais seu rosto, ela estava a dois metros de mim e tudo que eu via era o halo da luz esverdeada em torno da sua cabeça, os cabelos se debatendo, o brilho dos olhos pretos e o batom vermelho.
ela estava a menos de um metro de mim quando parou. parou e me encarou por uma eternidade, daqueles olhos infinitos. levantou um braço trêmulo e pousou a mão em meu ombro, me lançando um olhar complacente, misericordioso.
antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, pensar ou reagir, ela desabou na calçada enlameada, a boca semiaberta e os olhos escancarados. sua bolsinha bateu no chão e todo seu conteúdo se espalhou pelo chão: o batom, um papel amassado e um frasco de veneno.

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